quinta-feira, 4 de abril de 2013

O cinema em dupla e a crônica da burguesia falida




Cinema é coletivo. Grande novidade... Se a construção coletiva, envolvendo cada departamento, é o que faz uma obra cinematográfica acontecer, afinar as visões de dois diretores em um só filme pode funcionar muito bem. No caso de “Trabalhar Cansa” (Brasil, 2011), os diretores Marco Dutra e Juliana Rojas acertam no tom da narrativa, dividida em dois universos, propositalmente, pouco definidos.

Partimos de um hiperrealismo que começa de um plot point. Helena, uma paulistana de classe média, aluga um mercadinho de bairro, o novo investimento de sua família. Aparentemente, ela busca algo para preencher o seu tempo ou se autoafirmar também enquanto chefe de família. Negócio fechado com a corretora e, logo na cena seguinte, surge o primeiro ponto de conflito: Otávio, o marido, acaba de ser demitido. 

Desapontada, Helena pede ao marido para tentar levar o negócio adiante, ao mesmo tempo em que ele vai atrás de um novo emprego. O mercadinho pertencia a uma outra família e parece guardar alguns segredos macabros. O universo fantasioso se confunde com a realidade. Esse universo nunca é explícito ou escancarado, diferente, por exemplo, de “O Labirinto do Fauno” (México, 2006). 

Dutra e Rojas buscam “massacrar” essa família de classe média. Coisas aparentemente estranhas começam a acontecer, como o entupimento de um cano de esgoto sem maiores explicações. As vendas vão de mal a pior. Otávio não consegue emprego e se vê obrigado a participar de dinâmicas de grupo ridículas nos departamentos de RH das empresas. 

Fica clara a intenção dos diretores em explorar as relações de poder, especialmente entre Helena e os seus subalternos. Ela é uma mulher vazia, com um olhar perdido, entristecido. Da mesma forma, Otávio se vê numa situação em que o ócio passa a fazer parte de seu cotidiano. 

Os diálogos simples, sem frases de efeitos, alcaçam o hiperrealismo sugerido no roteiro. Numa simples discussão entre o marido e a mulher sobre corte de gastos, Otávio diz que deveriam cortar a tv à cabo. Helena responde: “Não. A Vanessa (filha do casal) tá de férias”. Da mesma forma, o marido, já desempregado, ajuda na montagem de um boneco de papai noel no mercadinho da esposa. Uma pessoa lhe pergunta onde está determinado produto e ele responde, ofendido: “Não trabalho aqui”. Otávio não trabalha em lugar nenhum, na verdade.

Paula, a empregada contratada para cuidar da casa, ironicamente em meio à narrativa, é a única que parece ter um futuro ascendente, mesmo aceitando o trabalho sem registro na casa de Helena. 

O paralelo entre o literal e o simbolismo enriquece a narrativa tensa, que cresce para um final surpreendente pela não surpresa. Os planos estáticos constroem uma atmosfera que parece ser “carregada nas costas” pelos protagonistas. À medida que a projeção avança, o clima fica mais denso, hostil, os tons parecem escurecer. Os travellings entre as prateleiras do mercadinho ajudam a criar o clima de suspense proposto para essa crônica da burguesia falida. 

Marco Dutra e Juliana Rojas já tinham um histórico de uma parceria de sucesso, com a realização de diversos curtas premiados. “Trabalhar Cansa” é o primeiro longa dos dois e foi exibido em Cannes, no ano de 2011, na mostra não competitiva “Um certo olhar” (traduzindo).     

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