terça-feira, 2 de abril de 2013

“‘Depois da Chuva’ é um filme jovem, apaixonado”


Fotos: Agnes Cajaíba



“Caio, Tales e Sara, os três amigos anarquistas andam pelas ruas do centro de Salvador. Eles caminham de forma decidida, sem olhar para o lado, sem se falarem. Há ali um desejo de potência explícito, de ultrapassar os limites impostos”. A descrição de uma das cenas de “Depois da Chuva”, feita por Claudio Marques, revela um pouco da atmosfera do filme, que está em fase de finalização. 

Esse é o primeiro longa dirigido por Claudio e por sua companheira, Marília Hughes, depois de uma parceria de sucesso, que resultou em seis curtas metragens, além da realização do tradicional Panorama Coisa de Cinema. O filme se passa no ano de 1984, em Salvador, época turbulenta, de transição política. 

Claudio, nascido em Capinas, mas filho e neto de baianos, vive em Salvador desde os início dos anos 80. Já Marília é natural de Vitória da Conquista. Foi justamente o cinema que aproximou os dois. Eles se conheceram quando Marília finalizava o seu documentário “Pelores”, em 2004. Era o início de uma parceria de sucesso. 

Conversamos com Claudio sobre “Depois da Chuva”, que esperamos poder ver nos cinemas a partir de 2014. O filme, protagonizado pelo ator Pedro Maia, nasceu de uma inspiração autobiográfica do próprio Claudio, mas ele ressalta que, passados cinco anos do início do projeto “os personagens possuem identidade e história próprias”. Confira abaixo a entrevista:


N-2C - “Depois da Chuva” resgata um passado recente, mas, que, pra quem nasceu já nos anos 80, pode não parecer tão recente assim. Como esse processo está contextualizado? Como o filme dialoga com as novas gerações?

Claudio Marques - A década de 80 foi turbulenta. De extremos. Sensação de liberdade misturada aos hábitos da ditadura. Tempo de muita instabilidade: guerra nuclear, descoberta da AIDS, punks, Menudos... Em 1984, muitos sentimentos reprimidos há muito pela ditadura vieram à tona. Era o momento da democracia, mas algumas pessoas queriam mais. Queriam a liberdade, o socialismo, a anarquia. Na década de 80, vivenciamos o último suspiro das grandes utopias.

"Depois da Chuva" traz essa atmosfera, essas tensões, embora nunca de forma didática, explícita. Isso tudo está na fala, no corpo e nas ações dos nossos personagens, sobretudo do nosso protagonista. O filme respeita o ritmo dos acontecimentos naquele momento. Havia um sentimento muito grande de potência, no início. Parecia ser realmente possível mudar as coisas. No final, com a morte de Tancredo e com Sarney na presidência, um sentimento de paralisia tomou a todos.

Mas, não falamos de situações datadas. As novas gerações querem liberdade. Existe uma insatisfação muito grande quanto à representação política dos dias de hoje. Esse modelo político que hoje contestamos foi elaborado naquele momento, pelos políticos que chegaram ao poder no final da ditadura.

Outro detalhe importante: existem experiências atemporais na juventude.

“Depois da Chuva” é um filme jovem, apaixonado. Isso provocará identificação não apenas nos mais jovens, mas em muitos que passaram por essa fase da vida.



N-2C - Podemos dizer que o protagonista, Caio, seria um mistura desses sentimentos de quem viveu o fim do regime militar e acompanhou o movimento das Diretas Já?

CM - Caio vai além das expectativas comuns do momento. Ele não quer "apenas" o fim da ditadura, mas ele sonha com um sistema representativo direto. Ele é um anarquista. Volto a lembrar que estamos em uma época derradeira das grandes utopias. Caio e seus amigos anarquistas são os "últimos dos moicanos".

N-2C - Cláudio, até que ponto podemos dizer que “Depois da Chuva” é um filme autobiográfico (ou não)?

CM - De inspiração autobiográfica, sim. Eu, adolescente, vivi aquele momento e me inspirei em minhas histórias e vivências para dar início ao projeto. Aliás, foi conversando com Marília (Hughes), que é mais nova que eu, sobre os acontecimentos de 84, que compreendemos juntos que ali estava o nosso primeiro longa-metragem. Marília foi a primeira a entender isso.

Mas, hoje, passados quase cinco anos desde que demos início ao projeto, já posso dizer que Caio e demais personagens possuem identidade e história próprias. Não sou eu. Posso dizer aos meus amigos da época para ficarem tranquilos (risos).

N-2C - De que forma vocês utilizam a linguagem cinematográfica pra transmitir esses anseios por liberdade, essa transição de contexto (considerando o fim do regime e as próprias mudanças vivenciadas por Caio)?

CM - Temos alguns planos emblemáticos nesse sentido. No início do filme, por exemplo, Caio, Tales e Sara, os três amigos anarquistas andam pelas ruas do centro de Salvador. Eles caminham de forma decidida, sem olhar para o lado, sem se falarem. Há ali um desejo de potência explícito, de ultrapassar os limites impostos.

Mas, vale dizer, que o desejo por liberdade está em todo "Depois da Chuva", nas ações do protagonista.

Outra coisa interessante a mencionar é que o ritmo do filme respeita, em muito, o ritmo dos acontecimentos à época.

Um terceiro elemento que pode ser mencionado: os cenários escolhidos. Cito aqui, por exemplo, uma fábrica abandonada que aparece no filme no momento da eleição de Tancredo Neves. As paredes destruídas dão a ideia desse país destroçado pelo desenvolvimentismo militar. Os jovens da festa que buscam a reconstrução.



N-2C - Pedro Maia foi escolhido em meio a centenas de outros jovens. O que chamou a atenção de vocês em Pedro? 

CM - Em uma audição com o grupo de Teatro do Colégio Oficina, em meio a outros garotos muito interessantes (inclusive, alguns deles estão no filme em papéis importantes), Pedro mostrou-se sempre muito tranquilo, sem nenhuma afetação especial pela nossa presença ou pela câmera, uma vez que estávamos filmando. Ao mesmo tempo, ele estava muito seguro e falava de forma apaixonada sobre a possibilidade de ser ator no cinema. Percebemos que ele estava com um livro sobre Patti Smith. Pedimos que ele lesse um trecho, ele assim procedeu. E fez muito bem. No dia seguinte, revendo as entrevistas, Marília e eu tivemos certeza de que Pedro seria Caio.

N-2C - Com quais recursos foi realizado “Depois da Chuva”? E quando poderemos vê-lo nas telas dos cinemas?

CM - Ganhamos o edital de Baixo Orçamento do Minc (Ministério da Cultura), em 2010 (R$ 1,2 milhão) e o edital realizado pelo Fundo de Cultura do Estado da Bahia (R$ 200 mil).

Temos conversas já adiantadas com um distribuidor, que está animado com o filme. Uma boa possibilidade é lança-lo em janeiro de 2014. Mas, vamos ver. Vamos terminar o filme, em primeiro lugar.

N-2C - Em quanto tempo vocês realizaram “Depois da Chuva”? Tiveram alguma dificuldade, fora aquelas já previstas, nesse processo de realização? Alguma situação inusitada?

CM - Cinco anos. Tivemos as dificuldades normais e inerentes a fazer cinema. Mas, nós gostamos de todas as etapas da elaboração e realização de um projeto: roteiro, captação, filmagens, montagem. Talvez, a finalização seja a única um tanto desagradável. Me sinto, às vezes, em uma oficina mecânica com o sujeito falando coisas que eu absolutamente não compreendo. Tivemos muitos encontros que nos ajudaram muito nessa caminhada.

N-2C - Você e Marília já realizaram seis curtas anteriormente. Quais os caminhos pra realiza-los?

CM - Fizemos sempre das duas formas: guerrilha mais edital. Temos muitas coisas nossas, que não são para exibição em festivais. Importante, creio, é respeitar a ideia que se tem e ver a melhor forma de executá-la. Cada projeto demanda uma forma de produção e uma quantidade de dinheiro específica.



N-2C - Quando começou a relação de vocês com o cinema? 

CM - Eu comecei a escrever em um jornal sobre cinema em 1995. De lá para cá, iniciamos o Panorama (Coisa de Cinema), em 2002, e comecei a escrever e fazer filmes em 2006.

Marília fez “Loná de Asfalto” em 2002, primeiro curta e teve ali a certeza de querer trabalhar com cinema.

Nos conhecemos quando Marília tentava finalizar seu segundo curta, “Pelores”. Eu a ajudei e começamos, ali, a construir a nossa parceria.

N-2C - Claudio, você ainda é sócio do Cinema Glauber Rocha e, junto com Marília, realiza, anualmente o Panorama.  Uma pergunta talvez um tanto quanto indiscreta: como conseguem fazer tudo isso?!

CM - Trabalhamos muito. Muito, mesmo. Tem muita dedicação nossa aqui.

Marília diz que  já virou piada no meio cinematográfico o fato de eu acordar todos os dias às 4h da manhã.

N-2C - Pra finalizar, quais os próximos projetos em vista?

CM - Estamos realizando um longa-metragem, documentário, que conta um pouco da história da construção da Hidrelétrica e Represa de Sobradinho, no norte da Bahia. Quatro cidades desapareceram e 73 mil pessoas foram deslocadas da região. Estamos há sete anos pesquisando, filmando, viajando para a região…. Creio que até o final do ano estará pronto. 

Por outro lado, queremos muito realizar um longa com crianças, que irá se chamar "A Guerra dos 300 Meninos" ou "Guerra de Algodão", ainda não temos certeza. Esse longa já está quase todo em nossas cabeças. Precisamos ter um pouco de tempo para escrever o roteiro!

Nenhum comentário:

Postar um comentário