segunda-feira, 11 de março de 2013

Sem panfletos ou estereótipos




Uma das gratas recentes surpresas do cinema francês foi o filme “Tomboy” (França, 2011), da diretora e roteirista Céline Sciamma. O título é um termo que diz respeito à meninas que gostam de agir como meninos e é justamente o tema central do longa.

O filme abre com uma personagem de costas à câmera, com o rosto ao vento, andando em um carro com o seu pai. Eles estão de mudança para um novo condomínio, cercado por árvores e cheio de crianças passando por fases de transformações físicas e mentais. Só notamos que a personagem que abre o filme é uma menina quando o roteiro, no momento certo, revela o seu verdadeiro nome: Laure.

Laure é uma menina de 10 anos, que gosta de se vestir como um menino: usa camisetas e bermudas folgadas e tem o cabelo curto. Ao se envolver com a turma de seu condomínio, começa a desenvolver artifícios para manter a farsa. Aos 10 anos, os traços de seu corpo ajudam no disfarce, sendo que Laure não tem problemas em tirar a camisa em frente aos seus amigos.

Lisa, uma de suas vizinhas, acaba se apaixonando por ela, imaginando se tratar de um garoto. Em uma entrevista a um jornal espanhol, a diretora Céline Sciamma diz que não é possível afirmar se existe reciprocidade por parte de Laure ou se ela vai adiante para se afirmar enquanto garoto.

Sem ser panfletária ou melodramática, Céline Sciamma conseguiu desenvolver um trabalho sutil e sincero dentro de sua abordagem. A sutileza que também se evidencia na condução da câmera mostra que existe a proposta de não fazer do filme algo pretensioso, inclusive pela própria duração (pouco mais de 80 minutos).

A diretora ainda evitou a construção de estereótipos e, desde o início, parece ser incisiva em não buscar explicações para o fato de Laure querer se comportar como um garoto. Um núcleo familiar unido e amoroso procura mostrar que o comportamento de Laure não tem nenhuma relação com rebeldia, revolta. Ela simplesmente sente-se melhor como um menino, ou, de outra perspectiva, não se sente a vontade como menina.

Os planos elaborados dentro do núcleo familiar de Laure revelam o aconchego do lar, a união entre pai, mãe, irmãs. A família está ainda a espera de um novo integrante, já que a mãe está grávida. A rotina de carinho e atenção sob a perspectiva de uma porta sobre outra porta, ou uma moldura sobre outra moldura denotam a ideia de proteção. Laure está segura ali dentro. Ela não sofrerá, naquele espaço, as consequências de uma sociedade conservadora e preconceituosa.

Por outro lado, a câmera no ambiente externo é mais “nervosa”. Alterna-se entre planos fechados e abertos e movimentos que buscam seguir a dinâmica da criançada.

A farsa de Laure vai ganhando proporções cada vez mais complicadas, mas Céline Sciamma deixa claro que está fazendo um recorte de uma fase da vida dessa personagem. O filme não é construído de forma didática. Vai crescendo a cada momento em que o disfarce de Laure ganha proporções maiores. 

Ressaltemos o trabalho da jovem atriz Zoé Héran, em um papel corajoso, que ela assumiu e, naturalmente, consegue enganar o próprio espectador. Nós mesmos, sabendo que aquilo é uma farsa, em muitos momentos, esquecemos que Laure é uma garota, de tão convincente que é o desempenho da atriz. 

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