segunda-feira, 4 de março de 2013

O primeiro plano do olhar


Um olhar tímido e misterioso. Esse é o primeiro plano de “Repulsa ao Sexo” (Inglaterra, 1965). Enquanto o plano vai se abrindo, vamos, cada vez mais, nos encantando com esse olhar, de uma bela jovem de traços angelicais. Na época, era uma atriz ainda em ascensão: Catherine Deneuve. Da mesma forma, quem a dirigiu começava a desenhar os primeiros passos de uma carreira promissora: Roman Polanski.

Não há como negar que, fora do set, “dentro” da mise en scène, esses dois nomes constituem também as personagens principais de “Repulsa ao Sexo”. A francesa Catherine Deneuve consegue levar o espectador ao engano, diante de sua aparência meiga e de sua personalidade retraída. Ela interpreta Carol, uma jovem manicure que vive com sua irmã em um pequeno apartamento na capital inglesa.

Carol, por sua beleza, chama a atenção dos homens, que a cortejam pelas ruas de Londres. Um deles, Colin, insiste em um romance, sem sucesso. Isso porque Carol, como o título sugere, tem repulsa ao sexo. Por algum motivo, não explicitado por Polanski e pelo co-roteirista Gerard Bach, ela se esquiva e se retrai de qualquer investida e ainda reprova o namorado arrogante da irmã.  

É da sua irmã, também, que Carol é extremamente dependente, como se fosse o seu escudo num mundo conturbado, mesmo não compactuando com as atitudes dela. Uma dia, sua irmã viaja com o namorado. A partir daí, Carol, vendo-se sozinha no claustrofóbico apartamento, inicia um processo de desequilíbrio psicológico e revela uma face antes ocultada em detrimento àquelas feições angelicais.

O polonês Polanski, por sua vez, explora como pode os instrumentos da linguagem cinematográfica. O espectador é colocado como voyeur nas sequências em que Carol anda pela rua e a câmera na mão apenas a segue. Em muitas outras sequências, aquelas que tentam definir o lado obscuro de Carol, vemos movimentos de câmera que não seguem padrões formais, buscando os ângulos necessários para mostrar o desespero e a tortura.

Para Polanski, o espectador não deve ser subestimado. Por isso, todos os elementos principais de “Repulsa ao Sexo” são sugeridos. Ao ver o filme, o espectador poderá supor o motivo de Carol ser tão retraída com relação ao sexo oposto. Em uma determinada cena, ela anda pela rua e para diante de um piso rachado. Trata-se de um indício da personalidade da personagem, perdida, deteriorada, machucada. É um indício da ruptura mental que vamos acompanhar durante a projeção e que o diretor conseguiu construir tão bem dentro da passagem de tempo.

Depois de “Repulsa ao Sexo”, Roman Polanski começou a pincelar o seu nome como um dos grandes nomes do cinema mundial. Fez carreira no cinema hollywoodiano e ganhou um Oscar em 2002 pelo filme “O Pianista”. Foi aclamado com “O Bebê de Rosemary” (EUA, 1968). Em 1976, dirigiu na França “O Inquilino”, que, junto com “Rosemary” e “Repulsa ao Sexo” formaria a chamada “Trilogia do Apartamento”.

Não nos cabe aqui julgar os atos fora da atividade cinemtográfica, mas não há como não citar a conturbada vida pessoal do diretor. Em 1969, sua esposa, Sharon Tate, grávida de oito meses, foi assassinada por uma gangue liderada por Charles Manson. No final dos anos 70, foi acusado de estuprar uma jovem de 13 anos. Por conta deste último caso, o diretor foi detido em uma prisão na Suíça em 2009, mas ficou livre menos de um ano depois.

Nenhum comentário:

Postar um comentário