quarta-feira, 20 de março de 2013

Além do que se vê




Quando nos deparamos com o primeiro plano de “Lena” (Bélgica/Holanda, 2011) parece que trocamos olhares com essa jovem que dá título ao filme. Na medida em que o plano vai se abrindo, revela-se um ambiente escuro, um lugar que ninguém jamais se posicionaria por livre e espontânea vontade.

Lena está fazendo sexo com um rapaz que deve ter a sua idade. Ao finalizar o ato, ela tenta beijá-lo. Ele a repreende dizendo: “Não vá se apaixonar”. O diretor Christopher Van Rompaey e o roteirista Mieke de Jong não caíram no clichê de fazer um melodrama sobre bullying. Na verdade, Lena é aparentemente solitária, sim, mas não é uma adolescente ensandecida para perder a virgindade.

O sexo em “Lena” parece funcionar mais como uma válvula de escape do que como uma forma de inclusão em seu meio, até porque os garotos não querem ser vistos ao lado dela. Lena é gordinha, vive em um pequeno apartamento com sua mãe, possessiva e alienada, faz aulas de dança e um estágio numa creche. Tem uma amiga que, fisicamente, é o seu oposto. Ela é apresentada para o espectador na ordem inversa. A princípio, pensamos que é apenas uma adolescente inconsequente, procurando atenção. Mas, com o decorrer da projeção, a personagem cresce e se revela madura e responsável.

Uma noite, voltando para casa em sua motocicleta, se depara com um jovem fugindo da polícia. Lena o ajuda e, a partir daí, começa uma relação entre os dois. Daan, ao contrário dos outros garotos, não tem vergonha de Lena. Apresenta aos amigos como sua namorada, lhe dá presentes, procura ser romântico.

Para fugir da mãe possessiva, Lena vai morar com Daan. Nesse momento, começa a descobrir que há algo de errado com o seu namorado, que recebe visitas da polícia, e tem uma relação difícil com o pai.

Todo o filme é conduzido sob o ponto de vista de Lena, interpretada pela atriz estreante, Emma Levie. Os planos fechados em seu rosto, os travellings na motocicleta e a forma natural como a nudez da personagem é exibida (uma beleza fora dos padrões impostos pela ditadura na magreza) revelam que o discurso do diretor Christopher Van Rompaey é mostrar algo que vai além daquilo que se vê. Todas as personagens que possuem uma convivência maior com Lena vão revelando uma outra face de suas personalidades: uma amiga falsa, um namorado mentiroso, uma mãe atenciosa e um pai desequilibrado.

As sequências das aulas de dança denotam que Lena está disposta a dançar de acordo com a música até certo ponto. Os planos fechados em seu rosto, fazendo o fundo girar, nos passam a ideia de que o mundo da personagem é alheio ao que se vê, mas tentam encontrar o seu espaço, a sua válvula de escape.

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