segunda-feira, 25 de março de 2013

Da sala de aula à prática


Os alunos já estão formados e preparados para o mercado. O curso tecnológico de Produção Audiovisual da UniJorge tem a proposta de oferecer, aos interessados em se profissionalizar nesse segmento, conhecimento prático em um período de tempo mais curto (três anos), buscando aplicar em trabalhos acadêmicos as reais pressões enfrentadas no cotidiano. 

No ano passado, para homenagear o centenário do escritor Jorge Amado, os alunos do 4o semestre e último semestre tiveram a missão de adaptar trechos do livro “Quincas Berro D’ água”. O resultado foram quatro curtas, que contaram com a participação voluntária de atores jovens e veteranos, entre eles Fernando Neves, que encarnou a personagem que dá título ao livro. 

A atividade está incluída no cronograma do curso e, através dela, o aluno passa por todo o processo produtivo de um trabalho audiovisual, conforme explicou o professor Max Bittencourt. O início é a adaptação, propriamente dita. O projeto voltado para “Quincas” foi o primeiro em que os alunos mergulharam mais profundamente na realidade do mercado, realizando testes de elenco, escolha de locações, entre outras missões. 

O resultado de todo esse processo pôde ser conferido em novembro do ano passado, na sala do Cine Cena Itaigara, em Salvador. Alunos, professores, atores e convidados assistiram em tela o resultado do esforço dos alunos, que, como colocou a professora Ceci Alves, entram no mercado audiovisual ainda mais preparado. 

Para este ano, segundo adiantou a professora aos alunos do então 3o semestre, a proposta é adaptar Clarice Lispector.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Além do que se vê




Quando nos deparamos com o primeiro plano de “Lena” (Bélgica/Holanda, 2011) parece que trocamos olhares com essa jovem que dá título ao filme. Na medida em que o plano vai se abrindo, revela-se um ambiente escuro, um lugar que ninguém jamais se posicionaria por livre e espontânea vontade.

Lena está fazendo sexo com um rapaz que deve ter a sua idade. Ao finalizar o ato, ela tenta beijá-lo. Ele a repreende dizendo: “Não vá se apaixonar”. O diretor Christopher Van Rompaey e o roteirista Mieke de Jong não caíram no clichê de fazer um melodrama sobre bullying. Na verdade, Lena é aparentemente solitária, sim, mas não é uma adolescente ensandecida para perder a virgindade.

O sexo em “Lena” parece funcionar mais como uma válvula de escape do que como uma forma de inclusão em seu meio, até porque os garotos não querem ser vistos ao lado dela. Lena é gordinha, vive em um pequeno apartamento com sua mãe, possessiva e alienada, faz aulas de dança e um estágio numa creche. Tem uma amiga que, fisicamente, é o seu oposto. Ela é apresentada para o espectador na ordem inversa. A princípio, pensamos que é apenas uma adolescente inconsequente, procurando atenção. Mas, com o decorrer da projeção, a personagem cresce e se revela madura e responsável.

Uma noite, voltando para casa em sua motocicleta, se depara com um jovem fugindo da polícia. Lena o ajuda e, a partir daí, começa uma relação entre os dois. Daan, ao contrário dos outros garotos, não tem vergonha de Lena. Apresenta aos amigos como sua namorada, lhe dá presentes, procura ser romântico.

Para fugir da mãe possessiva, Lena vai morar com Daan. Nesse momento, começa a descobrir que há algo de errado com o seu namorado, que recebe visitas da polícia, e tem uma relação difícil com o pai.

Todo o filme é conduzido sob o ponto de vista de Lena, interpretada pela atriz estreante, Emma Levie. Os planos fechados em seu rosto, os travellings na motocicleta e a forma natural como a nudez da personagem é exibida (uma beleza fora dos padrões impostos pela ditadura na magreza) revelam que o discurso do diretor Christopher Van Rompaey é mostrar algo que vai além daquilo que se vê. Todas as personagens que possuem uma convivência maior com Lena vão revelando uma outra face de suas personalidades: uma amiga falsa, um namorado mentiroso, uma mãe atenciosa e um pai desequilibrado.

As sequências das aulas de dança denotam que Lena está disposta a dançar de acordo com a música até certo ponto. Os planos fechados em seu rosto, fazendo o fundo girar, nos passam a ideia de que o mundo da personagem é alheio ao que se vê, mas tentam encontrar o seu espaço, a sua válvula de escape.

terça-feira, 19 de março de 2013

Filmes selecionados para o próximo Cine Facom, que acontece nessa quarta-feira


• Adeus de Camila Hita e Maily Guimarães (estudantes de Comunicação da FACOM).
O objetivo do documentário é mostrar porque as pessoas deixaram de acreditar em suas respectivas religiões. Para além de um discurso religioso o documentário tenta compreender o processo da descrença de cada entrevistado. O vídeo traz depoimentos de vários estudantes da FACOM e de dois professores da Instituição, André Setaro e Regina Gomes.

• Circuito de Teatro e Dança do Recôncavo Baiano de Ronaldo Santos, estudante do Curso de Licenciatura em Teatro.
Este documentário trata-se de uma pesquisa acadêmica e é um registro do evento itinerante, circuito de teatro e dança do Recôncavo Baiano, realizado em 12 cidades do território do recôncavo no período de março a novembro de 2012. O vídeo teve como aparelho de captação audiovisual e fotográfica um celular, (Modelo Samsung GT-C 3200).

• O Jovem Mercador de Tiago Oliveira, estudante do Bacharelado Interdisciplinar – BI- em Artes, área de concentração em Cinema e Audiovisual do Instituto de Humanidades Artes e Ciência (IHAC- UFBA).
O filme mostra um dia de trabalho do jovem comerciante de frutas Leonardo Brito, garoto que aos 14 anos teve que assumir o antigo negocio de família deixado pelo falecido pai. Um olhar sobre um jovem que desde muito cedo teve que assumir uma grande responsabilidade para o sustento da família.

• Ser + Periperi de Talita Cerqueira, estudante do BI de Humanidades.
Uma amostra da campanha de rua feita pela candidata a empreguete mais Cheia de Charme do Brasil, MARILENE DE JESUS. Esta mesma campanha inspirou a música "SER + PERIPERI” que deu o nome ao curta.

• Transfeira de Rafael V. Teixeira, estudante do BI de Artes, concentração em Cinema e Audiovisual.
Este vídeo é uma produção independente do estudante Rafael Teixeira que quer mostrar as transformações da Feira de São Joaquim e sua importância para cidade de Salvador, como patrimônio cultural.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Sem panfletos ou estereótipos




Uma das gratas recentes surpresas do cinema francês foi o filme “Tomboy” (França, 2011), da diretora e roteirista Céline Sciamma. O título é um termo que diz respeito à meninas que gostam de agir como meninos e é justamente o tema central do longa.

O filme abre com uma personagem de costas à câmera, com o rosto ao vento, andando em um carro com o seu pai. Eles estão de mudança para um novo condomínio, cercado por árvores e cheio de crianças passando por fases de transformações físicas e mentais. Só notamos que a personagem que abre o filme é uma menina quando o roteiro, no momento certo, revela o seu verdadeiro nome: Laure.

Laure é uma menina de 10 anos, que gosta de se vestir como um menino: usa camisetas e bermudas folgadas e tem o cabelo curto. Ao se envolver com a turma de seu condomínio, começa a desenvolver artifícios para manter a farsa. Aos 10 anos, os traços de seu corpo ajudam no disfarce, sendo que Laure não tem problemas em tirar a camisa em frente aos seus amigos.

Lisa, uma de suas vizinhas, acaba se apaixonando por ela, imaginando se tratar de um garoto. Em uma entrevista a um jornal espanhol, a diretora Céline Sciamma diz que não é possível afirmar se existe reciprocidade por parte de Laure ou se ela vai adiante para se afirmar enquanto garoto.

Sem ser panfletária ou melodramática, Céline Sciamma conseguiu desenvolver um trabalho sutil e sincero dentro de sua abordagem. A sutileza que também se evidencia na condução da câmera mostra que existe a proposta de não fazer do filme algo pretensioso, inclusive pela própria duração (pouco mais de 80 minutos).

A diretora ainda evitou a construção de estereótipos e, desde o início, parece ser incisiva em não buscar explicações para o fato de Laure querer se comportar como um garoto. Um núcleo familiar unido e amoroso procura mostrar que o comportamento de Laure não tem nenhuma relação com rebeldia, revolta. Ela simplesmente sente-se melhor como um menino, ou, de outra perspectiva, não se sente a vontade como menina.

Os planos elaborados dentro do núcleo familiar de Laure revelam o aconchego do lar, a união entre pai, mãe, irmãs. A família está ainda a espera de um novo integrante, já que a mãe está grávida. A rotina de carinho e atenção sob a perspectiva de uma porta sobre outra porta, ou uma moldura sobre outra moldura denotam a ideia de proteção. Laure está segura ali dentro. Ela não sofrerá, naquele espaço, as consequências de uma sociedade conservadora e preconceituosa.

Por outro lado, a câmera no ambiente externo é mais “nervosa”. Alterna-se entre planos fechados e abertos e movimentos que buscam seguir a dinâmica da criançada.

A farsa de Laure vai ganhando proporções cada vez mais complicadas, mas Céline Sciamma deixa claro que está fazendo um recorte de uma fase da vida dessa personagem. O filme não é construído de forma didática. Vai crescendo a cada momento em que o disfarce de Laure ganha proporções maiores. 

Ressaltemos o trabalho da jovem atriz Zoé Héran, em um papel corajoso, que ela assumiu e, naturalmente, consegue enganar o próprio espectador. Nós mesmos, sabendo que aquilo é uma farsa, em muitos momentos, esquecemos que Laure é uma garota, de tão convincente que é o desempenho da atriz. 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Atenção: CineFacom prorroga inscrições até 14 de março


Depois do sucesso da primeira edição, o projeto CineFacom dá continuidade à exibição de curtas realizados por alunos da Universidade Federal da Bahia - Ufba. A próxima edição do evento acontecerá no dia 20 de março, a partir das 18h30, no auditório da Faculdade de Comunicação da Ufba e as inscrições estão abertas até o dia 14. 

Para a segunda edição, estão sendo selecionados documentários com até 15 minutos de duração. Os interessados devem enviar um e-mail para outraspalavras.cafacom@gmail.com e solicitar um formulário de inscrição. Para a seleção, o realizador pode enviar um link, mas, para a exibição, será necessária entregar aos organizadores uma cópia em DVD. 

A primeira edição aconteceu no dia 27 de fevereiro, quando foram exibidos cinco curtas de ficção, seguido de debate com os diretores, sob a mediação do professor Fábio Sadao.


quarta-feira, 6 de março de 2013

Mosca está com inscrições abertas

A pequena cidade de Cambuquira, em Minas Gerais, vai sediar, pela oitava vez, a Mosca. A Mostra Audiovisual que premia curtas-metragens de até 30 minutos está com inscrições abertas até o dia 8 de abril. Os realizadores devem enviar uma cópia em DVD ou um link para sites de visualização de videos para submeter os seus trabalhos ao júri.

O regulamento completo pode ser acessado no site da Mosca. O evento acontece em julho. O prêmio máximo é de R$ 5 mil.

terça-feira, 5 de março de 2013

A morte de Hugo Chavez e a revolução não televisionada


A morte de Hugo Chavez me fez lembrar um documentário que vi na época de faculdade. “A Revolução Não Será Televisionada” (2002) mostra como a mídia da direita conservadora tentou manipular as informações acerca do golpe que tirou o recém-eleito Chavéz do poder. 

Esquecendo o aspecto cinematográfico, falemos de uma obra urgente, que trouxe, não uma outra visão, mas um outro ângulo de um momento histórico, distorcido pelos meios de comunicação. Nós, ignorantes aqui no Brasil, passamos pela mesma situação. É preciso ir ao L.A. Times e saber o que os grandes meios, aqueles que têm mais capilaridade, fazem questão de omitir ou distorcer: se quiser, veja aqui.


segunda-feira, 4 de março de 2013

O primeiro plano do olhar


Um olhar tímido e misterioso. Esse é o primeiro plano de “Repulsa ao Sexo” (Inglaterra, 1965). Enquanto o plano vai se abrindo, vamos, cada vez mais, nos encantando com esse olhar, de uma bela jovem de traços angelicais. Na época, era uma atriz ainda em ascensão: Catherine Deneuve. Da mesma forma, quem a dirigiu começava a desenhar os primeiros passos de uma carreira promissora: Roman Polanski.

Não há como negar que, fora do set, “dentro” da mise en scène, esses dois nomes constituem também as personagens principais de “Repulsa ao Sexo”. A francesa Catherine Deneuve consegue levar o espectador ao engano, diante de sua aparência meiga e de sua personalidade retraída. Ela interpreta Carol, uma jovem manicure que vive com sua irmã em um pequeno apartamento na capital inglesa.

Carol, por sua beleza, chama a atenção dos homens, que a cortejam pelas ruas de Londres. Um deles, Colin, insiste em um romance, sem sucesso. Isso porque Carol, como o título sugere, tem repulsa ao sexo. Por algum motivo, não explicitado por Polanski e pelo co-roteirista Gerard Bach, ela se esquiva e se retrai de qualquer investida e ainda reprova o namorado arrogante da irmã.  

É da sua irmã, também, que Carol é extremamente dependente, como se fosse o seu escudo num mundo conturbado, mesmo não compactuando com as atitudes dela. Uma dia, sua irmã viaja com o namorado. A partir daí, Carol, vendo-se sozinha no claustrofóbico apartamento, inicia um processo de desequilíbrio psicológico e revela uma face antes ocultada em detrimento àquelas feições angelicais.

O polonês Polanski, por sua vez, explora como pode os instrumentos da linguagem cinematográfica. O espectador é colocado como voyeur nas sequências em que Carol anda pela rua e a câmera na mão apenas a segue. Em muitas outras sequências, aquelas que tentam definir o lado obscuro de Carol, vemos movimentos de câmera que não seguem padrões formais, buscando os ângulos necessários para mostrar o desespero e a tortura.

Para Polanski, o espectador não deve ser subestimado. Por isso, todos os elementos principais de “Repulsa ao Sexo” são sugeridos. Ao ver o filme, o espectador poderá supor o motivo de Carol ser tão retraída com relação ao sexo oposto. Em uma determinada cena, ela anda pela rua e para diante de um piso rachado. Trata-se de um indício da personalidade da personagem, perdida, deteriorada, machucada. É um indício da ruptura mental que vamos acompanhar durante a projeção e que o diretor conseguiu construir tão bem dentro da passagem de tempo.

Depois de “Repulsa ao Sexo”, Roman Polanski começou a pincelar o seu nome como um dos grandes nomes do cinema mundial. Fez carreira no cinema hollywoodiano e ganhou um Oscar em 2002 pelo filme “O Pianista”. Foi aclamado com “O Bebê de Rosemary” (EUA, 1968). Em 1976, dirigiu na França “O Inquilino”, que, junto com “Rosemary” e “Repulsa ao Sexo” formaria a chamada “Trilogia do Apartamento”.

Não nos cabe aqui julgar os atos fora da atividade cinemtográfica, mas não há como não citar a conturbada vida pessoal do diretor. Em 1969, sua esposa, Sharon Tate, grávida de oito meses, foi assassinada por uma gangue liderada por Charles Manson. No final dos anos 70, foi acusado de estuprar uma jovem de 13 anos. Por conta deste último caso, o diretor foi detido em uma prisão na Suíça em 2009, mas ficou livre menos de um ano depois.