segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O que se vê


Se fosse escolher uma sequência para resumir o filme "Titicut Follies" (EUA, 1967), não haveria nada mais contundente do que a forçosa alimentação de um dos detentos de um hospital para o tratamento de prisioneiros insanos através de um tubo enfiado em uma de suas narinas. Frederick Wiseman direciona fortemente seu discurso ao alternar a montagem entre a ação dos funcionários e a arrumação de um cadáver, que é o preso alimentado “via nasal”.

O cinema direto de Wiseman projeta um olhar indignado sobre o que se vê. A câmera se movimenta e estaciona em cada um dos funcionários envolvidos na ação. A cada rosto enquadrado, um corte para o defunto. Dois funcionários seguram o pé do homem, que se recusava a comer e a beber. Ele não tem reação. Enquanto isso, um asqueroso (pelo menos, ao modo como é filmado) médico, superior na hierarquia do quadro funcional aos outros dois, fuma um cigarro, enquanto desse o produto narina abaixo de seu suposto paciente.

O médico é o último a ser enquadrado. Plano fechado em seu rosto. Contra plongée. Filmado como Hitler era registrado pela sua escola nazista de cinema. Nesse momento, Wiseman nos diz: ele é o monstro. O contraste entre as imagens do tratamento do paciente em vida e já morto revela o caráter da denúncia através da ironia. O homem é barbeado, vestido com um elegante terno, para depois ser engavetado.

Darren Aronofsky fez uma releitura  da cena em seu filme "Requiém para um Sonho" (EUA, 2000), quando uma mulher que se recusa a se alimentar é entubada, via nasal, em uma clínica psiquiátrica, para que os produtos desçam até o seu estômago.

"Titicut Follies" foi filmado em uma clínica de Massachussets, voltada para o tratamento de criminosos mentalmente desequilibrados. A narrativa não segue uma linearidade, mas incide sobre a denúncia, adotando a linha do cinema direto.

Alguns críticos questionam a ética do diretor, no momento em que expõe a humilhação, projeta em tela momentos degradantes por parte dos reclusos. Wiseman disse que só tinha autorização por parte da direção do hospital e dos funcionários. Sem dúvida, um ponto passível de discussão, mas não diminui a importância de "Titicut Follies" na história do cinema do século XX como instrumento também de denúncia.

Por tudo o que foi registrado, não se podia esperar um filme publicitário sobre o hospital. Seu conteúdo chocante foi um dos principais motivos que levaram a justiça americana, em vários estados, a proibir o filme por muitos anos.

O cinema direto ganhava uma de suas precursoras e principais obras, mostrando que a câmera pode denunciar através de uma estética crua e uma narrativa objetiva.

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