quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O ideal do amor (ou o amor ideal)


Um típico filme de Michael Haneke, ao mesmo tempo em que nos diz muito, nos permite chegar a múltiplas interpretações. “Caché” (França/Áustria/Alemanha/Itália, 2005) é um exemplo do que escrevo. Haneke pontua bem os seus personagens, nos mostra exatamente como é o cotidiano, a fim de criarmos certa intimidade com eles, até surgir o ponto de conflito: no caso de “Caché”, um homem começa a receber fitas de vídeo de um remetente misterioso e descobre que está sendo observado.

O novo filme de Haneke, “Amor” (França/Alemanha/Áustria, 2012), segue a mesma linha, só que é ainda mais visceral. Logo de início, temos um plano sequência: bombeiros e investigadores arrombam uma porta, fazem perguntas a moradores, que estranham a falta dos vizinhos, um casal de idosos. Um dos investigadores segue pelo apartamento até chegar a um quarto, onde vemos uma senhora morta, vestida a caráter, em uma cama envolta por flores. Já está ali faz algum tempo, pois o cheiro não é suportável.

Até aí somos introduzidos ao universo de “Amor”, que vai narrar a história desse casal de idosos, magistralmente interpretados por Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant. Eles são Anne e Georges, vivem em um confortável apartamento em Paris e desfrutam, aparentemente, de uma velhice saudável, permeada pela cumplicidade e pelo amor, propriamente dito. Os dois possuem uma rotina tranquila, até o dia em que Anne sofre um acidente cardiovascular.



Esse é o ponto de conflito. A partir daí, vemos os desdobramentos do ocorrido na rotina do casal, uma vez que Anne começa a desenvolver uma doença degenerativa. Georges dedica-se aos cuidados de sua esposa, mas, mesmo sem externar, deixar transparecer o sofrimento em seu olhar ao observar a situação da amada. A filha do casal, que não vive com eles, chega a questionar os métodos do pai e, no final das contas, todos os envolvidos diretamente com a doença de Anne se perguntam: até que ponto devemos prolongar o sofrimento?

Indiretamente, Haneke aborda uma série de temas em “Amor”, mas ele nos conduz a um desfecho no qual somos levados a tentar decifrar o real sentido do amor em sua essência. Praticamente, todo o filme situa-se dentro do amplo apartamento do casal. Os planos são longos e, em sua maioria, estáticos, contemplativos. Os cortes são contidos, o que nos leva a mergulhar na rotina de Anne e Georges.

Da mesma forma, o “progresso” da degeneração de Anne é acompanhado através desses planos mais longos e abertos. O espaço vazio dos quadros, no sentido humano, pode transportar o espectador a uma sensação melancólica, um processo de solidão, que aponta as dificuldades de lidarmos com o fim inevitável.

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