quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Mais um filme de Tarantino



Desde que lançou o seu primeiro longa em 1992, Quentin Tarantino já dava o recado de que veio pra deixar a sua marca no cinema norte-americano. Não sei se o fato de ter trabalhado em um balcão de locadora tem alguma relação com isso, mas o cineasta sempre demonstrou a sua apreciação pelos diferentes gêneros cinematográficos.

Vinte anos depois e alguns milhões a mais no bolso permitiram que Tarantino migrasse do cinema de baixo orçamento para as superproduções, com locações na Europa, e contratasse estrelas de Hollywood (ele que ficou famoso por revigorar a carreira de John Travolta em “Pulp Fiction”, de 1994).

“Django Livre” (EUA, 2012) é a mais nova “vingança” de Tarantino contra a história. Se em “Bastardos Inglórios” (EUA, 2010) ele praguejou contra o nazismo e “refez” do seu jeito, neste novo longa o diretor oferece ao espectador um banho de sangue em cima dos escravocratas sulistas dos Estados Unidos do século XIX.

Django, a personagem que dá título ao filme, é um escravo liberto e está sob a tutela do caçador de recompensas Dr. King Schultz, um alemão que perambula pelas terras truculentas estaduninenses. O ex-escravo, junto com o alemão, vai em busca de sua esposa, Brunhilde, propriedade do fazendeiro Calvin Candie, cujo hobby é assistir lutas de escravos que se esmurram até a morte.

Tarantino, como já era de se esperar, não se propõe a resgatar a história, mas aplica um olhar próprio, constrói à sua maneira e conduz como melhor lhe convém. Obviamente, gera controvérsias. Spike Lee, que critica abertamente Tarantino há alguns anos, e, mesmo sem ter visto “Django Livre”, acusou o colega de ser desrespeitoso com a história. “A escravidão não foi um spaghetti western de Sergio Leone”, afirmou Lee, via Twitter.

O diretor de”Django Livre” aponta sua visão ácida com os típicos diálogos escrachados e situações inusitadas, como na cena em que um grupo de fazendeiros sulistas, que seriam parte do klu klux klan, reclamava de não enxergar nada com aquele capuz branco. Ele explora o absurdo do processo, por meio da comicidade, o que pode incomodar.

O cineasta situa-se claramente na zona de confronto, desenha os sulistas brancos como caipiras ignorantes, absorve o sofrimento através de belíssimos planos. A violência, em um filme de Tarantino, é uma personagem a parte, e não foi diferente em “Django Livre”. O exagero faz parte do discurso do absurdo, com “acrobacias” pitorescas, tiros com a plasticidade sonora típica dos faroestes dos anos 60 e um banho de sangue bem ao estilo, justamente, de Sergio Leone (guardada, obviamente, as devidas proporções de recursos).

Faroestes esses que são os grandes homenageados da vez. Planos americanos, utilização das lentes zoom, os filtros que davam um ar de “envelhecimento” aos planos mais abertos... A fotografia do excelente Robert Richardson não deixa a desejar. Para tentar dar um ponto final à polêmica, o diretor escolhe uma trilha sonora de batidas contemporâneas, que vão desde peças de Ennio Morricone ao rap afroamericano. Ou seja, nada de trilhas típicas de faroestes ou filmes de época. Assim, Tarantino tenta dizer: “essa não é a história oficial, é a minha história”.

A personagem de Chritstopher Waltz, escrita especialmente para ele, tem uma presença duvidosamente marcante, como a figura que conduz ao bem, mesmo tendo um caráter duvidoso (afinal, é um caçador de recompensas). Jamie Foxx rouba a cena, de fato, fazendo jus ao papel que lhe foi confiado. E DiCaprio continua sendo ele mesmo.

Tinha que chegar a uma conclusão, mas não tenho, nem posso ter. Tarantino é uma daquelas figuras ambíguas. É independente, mas é pop star. Está em busca de prêmios (o próprio assumiu que quis lançar o filme a tempo do Oscar). As pessoas vão ver um filme de Tarantino porque é um filme de Tarantino. Elas riem, se apavoram com tanta violência e, ao final, não sabemos, exatamente, se adoraram ou detestaram (pois, geralmente, é oito ou oitenta...)

Talvez as expectativas estejam muito acima daquilo que está em tela. No fim, “Django Livre” é só mais um filme de Tarantino, que levou o Globo de Ouro de Roteiro Original e rendeu a Waltz o mesmo prêmio de Ator Coadjuvante.

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