segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A arte que nasce da dor


Ainda em tela preta, ouvimos sons de água em volume, como um rio que corre com violência. A primeira imagem que temos é de um cenário bucólico, um rio, rodeado por verde, montanhas ao fundo. Em seguida, a câmera revela algumas crianças brincando. Não precisamos ouvir o que elas estão falando. Basta ver. Com a mesma serenidade, podemos ver algo estranho. Um corpo de uma jovem, provavelmente uma adolescente, bóia nesse imenso rio.

Logo depois, um contraste. Saímos do cenário bucólico e entramos na paisagem urbana, sem a mesma serenidade. Tudo parece veloz, tumultuado. Nesse ponto, somos apresentados a Mija, interpretada por Yoon Hee-jong, a personagem principal de “Poesia” (Coreia do Sul, 2010). A relação entre o corpo que bóia no rio e essa senhora é revelada ainda na primeira metade do filme.

Seu neto, um adolescente com ares de rebeldia, que vive longe da mãe, é acusado de estuprar uma jovem de seu colégio junto com outros colegas. A garota, Agnes, suicidou-se depois do incidente (é a que vemos no rio logo na primeira cena). Os pais dos outros garotos, para amenizar a situação e evitar um escândalo, sugerem o pagamento de uma indenização à mãe de Agnes, uma pequena agricultora da região. A quantia não pode ser paga por Mija.



Essa é uma das problemáticas desenvolvidas pelo diretor Lee Chang-dong. Antes de descobrirmos o incidente, Mija revela a um médico que tem esquecido algumas palavras. Esse esquecimento, subentende-se, pode ser os primeiros sintomas do Mal de Alzheimer. Para combater o esquecimento das palavras, Mija entra em um curso sobre como escrever poesia, cujo objetivo é apresentar, ao final, um poema.

Então, em mais ou menos duas horas e meia de projeção, seguimos esta senhora, lutando contra o Alzheimer através das palavras, lutando contra as palavras para escrever um poema, lutando contra o tempo para salvar o neto e lutando contra a dor para entender o mundo. Durante vários momentos, ela questiona o seu professor de poesia, sobre a dificuldade de se escrever.

A jornada de Mija gira em torno da dor. Seria minimalista por parte de Lee Chang-dong dizer que a arte nasce apenas da dor. Mas ele vai além. A construção sensorial em “Poesia” insere-se no processo criativo propriamente dito. Toda a história gira em torno dessa personagem que está em busca de algo, numa realidade contubarda. Por isso, a câmera na mão dá um ritmo nervoso, paradoxalmente à suposta calmaria das ações, e os planos estão sempre em confronto com Mija, que encara o mundo e procura o seu lugar.

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