quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Um retrato sem folclores ou firulas




Há tempos, não se via um longa brasileiro, que exaltasse, de fato, a linguagem cinematográfica, ser tão reverenciado em festivais no país e no mundo afora. O Som ao Redor, do diretor Kleber Mendonça Filho, assume uma bem-sucedida trajetória, tendo sido o filme nacional mais premiado do ano passado.

Recentemente, foi escolhido como o melhor filme latino-americano no Prêmio Cinema Tropical, realizado em Nova Iorque. O New York Times o elegeu como um dos 10 melhores filmes de 2012. Foi aclamado em Gramado e no Festival do Rio. E esse é o primeiro longa-metragem de Mendonça Filho.

Toda essa carreira de O Som ao Redor faz jus ao trabalho do cineasta, que, desde os primórdios, revela um olhar sutil, porém crítico, acerca de sua própria realidade, como a relação entre uma dona de casa e suas máquinas em Eletrodoméstica (2005). Mas isso não significa que temos um filme que fale só, e somente só, para Recife, cidade natal de Kleber Mendonça. Suas narrativas são quase sempre universais.

O Som ao Redor retrata o cotidiano de uma rua localizada num bairro de classe média da capital pernambucana. São tramas que se desenvolvem em paralelo, cujas personagens só estão vinculadas pelo local de sua moradia. O cotidiano da rua é alterado quando seguranças particulares assumem a vigilância da região.

Kleber Mendonça Filho faz uma analogia ao coronelismo, quando identificamos uma personagem que é uma espécie de “dono da rua”, e manda e desmanda no local, como um senhor de engenho moderno. Os vigilantes atuam como capatazes e, ao mesmo tempo, passam apenas uma mera ilusão de segurança para os moradores mais paranoicos. Os contrastes sociais são expostos pelo diretor de forma primorosa, explorando uma estética audiovisual, na qual o som tem um papel preponderante na narrativa.

O tom quase documental perpassa por diversas temáticas, no qual identificamos uma análise do crescimento econômico vivenciado pelo nosso país nos últimos anos, com o boom imobiliário e o surgimento da chamada nova classe média. Em um plano, uma das personagens, que está dentro de um apartamento, aproxima-se da varanda e parece ser engolida pelos enormes prédios que tomam conta da paisagem urbana.

Com personagens tão realistas e diálogos banais, sem firulas, mas que têm uma importância fundamental no contexto da narrativa, Kleber Mendonça explora os contrastes de uma sociedade cujos valores não se corromperam, mas sempre estiveram corrompidos.

 A câmera é singela. Os travellings pela rua tensionam o espectador, que pode esperar uma mudança na curva dramática a qualquer momento. O movimento suave e fluído e os planos com grande angular transformam o cotidiano em um caminho complexo, dentro de todas as suas nuances. A montagem segue o mesmo ritmo, sem “violência”, mas atua dentro de uma estratégia dramática da criação de expectativas sobre o que estar por vir. O som, que é praticamente uma personagem a mais, é agressivo, em alguns momentos, e quase silencioso em outros.

O elenco não tem nomes conhecidos do grande público. Todos os atores são pernambucanos, alguns sem experiência prévia no cinema.

Esses elementos unidos fazem de O Som ao Redor um filme completo, em todos os aspectos da linguagem cinematográfica. Cada um desses elementos se complementa, concretizando um dos melhores filmes nacionais dos últimos anos.

Com um olhar aprimorado, Kleber Mendonça Filho faz um retrato da Recife contemporânea, sem precisar recorrer a folclores, com uma narrativa que dialoga com qualquer brasileiro e é perfeitamente entendível para uma audiência exterior, que estará livre dos estereótipos criados, ao longo dos anos, no imaginário desse público.    

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