quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A besta humana

Faz quase um ano que assisti pela primeira vez “O Sangue das Bestas” (França, 1949). Foi numa oficina de documentário, ministrada pelo professor Daniel Jariod. Na ocasião, estava sendo “catequizado” sobre o processo de se fazer cinema documental, que nada mais é do que fazer cinema, em sua mais pura essência.

No momento em que se abrem os créditos e vemos uma imponente estátua de bronze de um touro, reverenciado quase como uma divindade, munido de uma trilha sonora que nos conduz a um estado de “inércia por calmaria”, o próprio título do filme já contrapõe o suposto discurso audiovisual do “belo”. E é o que vamos ver durante os cerca de 20 minutos de projeção.

O diretor Geroges Franju nos leva a três abatedouros de Paris. Ele nos posiciona no ambiente urbano, uma tranquila localidade, onde crianças brincam e belas moças se deliciam ao sol envolto por uma brisa de verão. Então, vemos um elegante cavalo, sendo conduzido por um homem, quando, de repente, o pobre animal é acertado na cabeça por uma arma de pressão. Ele cai de forma instantânea.

Mal está morto, e sua carne já começa a ser extraída (costume francês de comer carne de cavalo), para ser tratada e comercializada ao consumo humano. A cena é forte. Se fosse em cores, seria ainda mais impactante, pelo banho de sangue que vemos escorrer na tela. Mas Franju filma sem sensacionalismo. A câmera é tão fria quanto os “carrascos” dos abatedouros.

E essa frieza prossegue durante o restante do filme. Mas essa é a forma que choca. As imagens são apoiadas pelo verbo, poético como as imagens e, em outros momentos, frio como a câmera. Depois do cavalo, vemos a cruel morte de um boi, com marretadas na cabeça. A extração da carne de vitela e a decapitação dos carneiros revelam uma morte sistemática, conduzida por homens que estão apenas cumprindo o seu papel dentro de um quadro social.

Os planos se fecham, em alguns momentos, para captarmos o desespero das presas diante da morte certa. Em outros, vemos, em profundidade, uma fileira de patas se debatendo, lutando por um fio de vida. Mas, em boa parte, o olhar de Franju está no meio e no aspecto da condição humana. Em uma cena, acompanhamos o rebanho de ovelhas sendo conduzido para um “campo de concentração”.

O que faz de “O Sangue das Bestas” um grande filme é justamente seu discurso firme, mas variado em múltiplas vertentes. Franju está na França do pós-guerra, onde os reflexos ainda permanecem. A industrialização prossegue de forma efervescente e o homem rejeita a ideia para viver da matéria, do capital, de forma irracional. A todo momento, o diretor busca o contraponto, que submerge na irracionalidade humana, como na sequência em que os trabalhadores entoam a canção “La Mer” (O Mar), de Charles Trenét, enquanto desempenham o seu cruel ofício, que garante o pão de cada dia.

À primeira vista, o que parece uma simples denúncia de maus tratos contra os animais que enchem as nossas barrigas de suculentas e gordurosas carnes, pode significar apenas um filme ultrarrealista, apoiado por uma violência presente, mas reverenciada plasticamente pela estética cinematográfica. No entanto, é mais do que isso. Cada vez que rodamos o filme, podemos enxergar o sangue escorrendo da besta irracional humana, cuja falta de senso levou e leva a caminhos tortuosos e violentos.

“O mar
embalou-os
ao longo dos golfos claros
e (ao longo) de uma canção de amor
O mar
embalou meu coração para a vida”
 
La Mer – Charles Trénet

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Confira a programação do Cine Nostalgia para fevereiro

Dia 01 às 15:00 filme " AVISO AOS NAVEGANTES " ano - 1950 ( BRASIL )
 Atores - Oscarito, Grande Otelo, Anselmo Duarte e Eliana Macedo.
 Diretor - Watson Macedo - Comédia - Livre - 113 min.
   
 Daia 02 às 15:30 filme  " SINFONIA FANTÁSTICA " ano - 1942 ( FRANÇA ) A vida de Hector Berlioz.
 Dia 03 às 16:00 (  O MESMO FILME ).
 Atores - Jean Louis Barrault, Renée Saint Cyr e Lise Delamare.
 Diretor - Cristian Jaque - Drama - 14 anos - 90 min.
   
DEVIDO AO CARNAVAL, O CINEMA NÃO FUNCIONARÁ NO PERÍODO DE 07 A 13/02
    
 Dia 14 às 15:00 FILME "  SONHA MEU AMOR " ano - 1948 ( USA )
 Atores - Claudette Colbert, Robert Cummigs e Dom Ameche.
 Diretor - Douglas Sirk - Drama - 14 anos - 97 min.
   
 Dai 15 :00 filme " RIO VIOLENTO " ano - 1960 ( USA )
 Atores - Montgomery Clift, Lee Remick e Jo Van Fleet.
 Diretor - Elia Kazan - Policial - 12 aanos - 105 min.
   
 Dia 16 às 15:30 filme " VERÃO DE 42 " ano - 1971 ( USA )
 Dia 17 às 16:00 ( O MESMO FILME )
 Atores - Jennifer O'Neil, Gary Games e Jerry Houser
 Diretor - Robert Mulligam - Drama - 16 anos - 104 min.
  
 Dia 21 às 15:00 filme " AS MULHERES " ano - 1939 ( USA )
 Atores - Norma Shearer, John Crawford e Rosalide Russel
 Diretor - Geoerge Cukor - Comédia 12 snos - 130 min.
  
 Dia 22 às 15:00 filme " DOMINADOS PELO TERROR " ano - 1954 ( USA )
 Atores - Robert Mitchum, Teresa Write, Diana Lynn e Tab Hunter
 Diretor - Willam Wellman - Policial - 16 anos - 102 min
  
 
 Dia 23 às 15:30 filme " O PIRATA " ano - 1948  ( USA )
 Dia 24 às 16:00 ( MESMO FILME ).Atores -  Judy Garlandy, Gene Kelly, Gladys Cooper e Walter Slrzak
 Diretor - Vincenti Minnelli - Musical - Livre - 102 min.
 
 Dia 28 às 15:00 filme " DOIS NO CÉU " ano - 1943 ( USA )
 Atores - Spencer Tracy, Irene Dunne, Dorindsa Dorston e Van Jonhnson
 Diretor - Victor Fleming - Drama - Livre - 120 min

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Um retrato sem folclores ou firulas




Há tempos, não se via um longa brasileiro, que exaltasse, de fato, a linguagem cinematográfica, ser tão reverenciado em festivais no país e no mundo afora. O Som ao Redor, do diretor Kleber Mendonça Filho, assume uma bem-sucedida trajetória, tendo sido o filme nacional mais premiado do ano passado.

Recentemente, foi escolhido como o melhor filme latino-americano no Prêmio Cinema Tropical, realizado em Nova Iorque. O New York Times o elegeu como um dos 10 melhores filmes de 2012. Foi aclamado em Gramado e no Festival do Rio. E esse é o primeiro longa-metragem de Mendonça Filho.

Toda essa carreira de O Som ao Redor faz jus ao trabalho do cineasta, que, desde os primórdios, revela um olhar sutil, porém crítico, acerca de sua própria realidade, como a relação entre uma dona de casa e suas máquinas em Eletrodoméstica (2005). Mas isso não significa que temos um filme que fale só, e somente só, para Recife, cidade natal de Kleber Mendonça. Suas narrativas são quase sempre universais.

O Som ao Redor retrata o cotidiano de uma rua localizada num bairro de classe média da capital pernambucana. São tramas que se desenvolvem em paralelo, cujas personagens só estão vinculadas pelo local de sua moradia. O cotidiano da rua é alterado quando seguranças particulares assumem a vigilância da região.

Kleber Mendonça Filho faz uma analogia ao coronelismo, quando identificamos uma personagem que é uma espécie de “dono da rua”, e manda e desmanda no local, como um senhor de engenho moderno. Os vigilantes atuam como capatazes e, ao mesmo tempo, passam apenas uma mera ilusão de segurança para os moradores mais paranoicos. Os contrastes sociais são expostos pelo diretor de forma primorosa, explorando uma estética audiovisual, na qual o som tem um papel preponderante na narrativa.

O tom quase documental perpassa por diversas temáticas, no qual identificamos uma análise do crescimento econômico vivenciado pelo nosso país nos últimos anos, com o boom imobiliário e o surgimento da chamada nova classe média. Em um plano, uma das personagens, que está dentro de um apartamento, aproxima-se da varanda e parece ser engolida pelos enormes prédios que tomam conta da paisagem urbana.

Com personagens tão realistas e diálogos banais, sem firulas, mas que têm uma importância fundamental no contexto da narrativa, Kleber Mendonça explora os contrastes de uma sociedade cujos valores não se corromperam, mas sempre estiveram corrompidos.

 A câmera é singela. Os travellings pela rua tensionam o espectador, que pode esperar uma mudança na curva dramática a qualquer momento. O movimento suave e fluído e os planos com grande angular transformam o cotidiano em um caminho complexo, dentro de todas as suas nuances. A montagem segue o mesmo ritmo, sem “violência”, mas atua dentro de uma estratégia dramática da criação de expectativas sobre o que estar por vir. O som, que é praticamente uma personagem a mais, é agressivo, em alguns momentos, e quase silencioso em outros.

O elenco não tem nomes conhecidos do grande público. Todos os atores são pernambucanos, alguns sem experiência prévia no cinema.

Esses elementos unidos fazem de O Som ao Redor um filme completo, em todos os aspectos da linguagem cinematográfica. Cada um desses elementos se complementa, concretizando um dos melhores filmes nacionais dos últimos anos.

Com um olhar aprimorado, Kleber Mendonça Filho faz um retrato da Recife contemporânea, sem precisar recorrer a folclores, com uma narrativa que dialoga com qualquer brasileiro e é perfeitamente entendível para uma audiência exterior, que estará livre dos estereótipos criados, ao longo dos anos, no imaginário desse público.