sábado, 17 de novembro de 2012

Sete décadas de vida e quatro dedicadas ao cinema


O cineasta Martin Scorsese completa 70 anos neste sábado, 17. Em sua trajetória, são mais de 40 anos dedicados ao cinema, mas não simplesmente ao fazer cinematográfico. Scorsese é um daqueles diretores diferenciados, que tem paixão pelo que faz, paixão pelo fazer e paixão pela arte. 

Sua cinefilia é evidente em qualquer bate-papo registrado em vídeos ou livros. Scorsese é um profundo conhecedor do cinema, preocupa-se com a memória da sétima arte, restaurando filmes através da World Cinema Foundation, e imprime todo essa paixão em sua obra. 

Ele não é um midas da indústria cinematográfica. Pelo contrário: coleciona uma série de fracassos de bilheteria. Em muitos casos, suas propostas foram mal interpretadas ou mal entendidas. Por muito pouco, não ficou à margem da indústria hollywoodiana, da qual procura se desvincular, entre uma produção e outra, realizando documentários independentes. 

Foi o cinema também que livrou Scorsese de dois destinos cruéis. Nascido em um bairro pobre de Nova Iorque, filho de imigrantes italianos, ele dizia que só teria duas opções na vida: ser padre ou gângster. Quis o destino que ele conhecesse o cinema e o mundo pôde ser coroado com o seu talento. 

Desde “Quem bate à minha porta?” até “A Invenção de Hugo Cabret”, são exatamente 44 anos de atividades. Com “Taxi Driver” e o retrato cru de Nova Iorque, juntamente com a crítica ácida a um sistema social hipócrita e excludente, começou a deixar a marca de reconhecimento como um dos grandes diretores de sua geração. 

Mesmo assim, sob pressão dos estúdios, depois do fracasso de “New York, New York”, seu primeiro e único flerte com um musical, chegou a pensar em jogar tudo para o alto. Foi graças a Robert De Niro que Scorsese voltou revigorado, em um projeto que pode ser considerado o ápice de sua obra. 

“Touro Indomável” é a cinebiografia do boxeador nova iorquino Jake La Motta. Rodado em preto-e-branco, o filme tem uma combinação de elementos que o colocam no patamar de melhor produção do cinema americano dos anos 80. Cada plano é milimetricamente estudado, mas dentro de uma montagem agressiva, quase sufocante, que traz o tom cruel e violento, não dos ringues de boxe, mas da vida que circunda a personagem principal. 

Scorsese, diga-se de passagem, tem colaboradores que o seguem e complementam de forma brilhante as suas propostas. A montadora Thelma Schoonmaker é, sem dúvida, a sua principal colaboradora. Acompanha o cineasta há 35 anos e é responsável por imprimir aquele ritmo que mistura, quase sempre, contemplação e agonia. 

A colaboração com Robert De Niro também rendeu bons frutos para ambos. Foi com “Touro Indomável” que o ator recebeu seu primeiro e único Oscar de Melhor Ator (o primeiro foi como coadjuvante em “O Poderoso Chefão II”). Na última década, o diretor firmou uma parceria com Leonardo DiCaprio. Na era das superproduções, o resultado não foi tão frutífero como a parceria com De Niro. Mas foi com “Os Infiltrados”, protagonizado por DiCaprio, que Scorsese recebeu o primeiro Oscar de sua carreira. 

Costumo dizer que Oscar não é parâmetro de qualidade e um dos grandes exemplos é o próprio Scorsese. “Os Infiltrados” é um filme que pode ser classificado como mediano, no máximo. Está muito longe de ser o melhor trabalho de Scorsese. O que parece ter acontecido foi que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas quis dar um prêmio de consolação ao cineasta, por ter deixado passar as oportunidades em filmes como “Touro Indomável” e “Os Bons Companheiros”. 

Outro ponto alto de sua obra é a utilização da música como elemento de estratégia dramática. Poucos diretores conseguem manipular esse artifício com tanta maestria. No cinema americano, dentro desse aspecto, podemos citar Stanley Kubrick e Quentin Tarantino. É algo complexo de concretizar e podemos observar esse direcionamento de Scorsese até em obras que passaram batidas pelo público e pela crítica, a exemplo de “Vivendo no Limite”.

O próprio Scorsese sabe que não lhe resta muito mais tempo de ofício. Sejamos realistas: não podemos esperar mais 40 anos de trabalho. Portanto, seus projetos, segundo o próprio cineasta, serão cuidadosamente escolhidos nos próximos anos (alguns já estão em andamento, como "The Wolf of The Wall Street"). Scorsese diz que, pelo fato de não lhe restar muito mais tempo, não pode arriscar tanto, como o fazia em início de carreira. 

Um filme de Martin Scorsese equivale a um grande trabalho artístico. Como assina em seus créditos: “A Martin Scorsese Picture”. Dentro de uma trajetória de evidente talento e paixão declarada ao seu ofício e sua arte, o que podemos esperar é, nem sempre um bom filme, mas uma bela obra de arte, pincelada nos mínimos detalhes. 

Em uma de suas inúmeras entrevistas, Scorsese disse: “Um diretor que se dedica ao seu trabalho deve estar satisfeito com o que vê na tela, independente de qualquer coisa. Pois aquilo que ele vê na tela é fruto do máximo de si dedicado a um filme”. Portanto, podemos ver que Martin Scorsese segue à risca aquilo que aconselha, afinal, para quem curte o bom cinema, como não enxergar essa paixão tão evidente ao longo de sua obra?

Nenhum comentário:

Postar um comentário