segunda-feira, 21 de maio de 2012

O olhar da história

Fotos: Carlos S. Baumgarten
Walter Webb, Roque Araújo e Hamilton Correia
O que era pra ser um workshop com uma presença razoável de pessoas, acabou tornando-se um bate-papo mais informal e agradável. Walter Webb, cineasta baiano que vive fora da terra há mais de 40 anos, está em Salvador para realizar a sua Oficina de Cinema, na qual trabalha produção, roteiro e direção. Como prévia do evento, o cineasta realizou um workshop no último domingo, dia 20 de maio.

Na verdade, o workshop serviu como complemento ao documentário de Paulo Hermida, O Cinema Foi à Feira, que resgata a história de A Grande Feira, de Roberto Pires, o precursor do cinema baiano. Não tinha muita gente no local. Junto com Walter, estavam uma das histórias vivas da cinematografia baiana, Roque Araújo, e o crítico de cinema Hamilton Correia, grande fomentador da sétima arte no nosso Estado.

Walter Webb conviveu com os grandes nomes do cinema novo baiano, entre eles, Glauber Rocha. Acompanhou nascimento dessa arte na Bahia e desenvolveu uma carreira no exterior, trabalhando inclusive em produções comerciais, como O Exorcista 2, e com estrelas de ordem mundial, a exemplo de Charlton Heston e Sophia Loren. E ele viu também o cinema baiano, praticamente, desaparecer.

A recuperação dá-se, hoje, graças aos meios digitais, que estão possibilitando que outras pessoas tenham acesso à produção e agreguem visões diferenciadas dessa linguagem cinematográfica. Entre algumas curiosidades levantadas por Webb, está a verdadeira autoria da frase “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. “Essa frase é creditada ao Glauber, mas, na verdade, é de Paulo César Saraceni (morto no mês passado), que filmou O Desafio (1965) sem roteiro definido”, lembra.

“Glauber tinha uma frase que nem todos conhecem, mas que, na minha opinião, era ainda mais genial: ´Sou um cineasta, portanto, não me cobrem coerência’”, revela Webb.

O tão almejado Oscar para o Brasil, na verdade, também já chegou. Nos últimos anos, quando os filmes tupiniquins estão na concorrência do mais pop dos prêmios cinematográficos, o povo brasileiro torce como se estivesse numa Copa do Mundo. Em 1959, Orfeu do Carnaval conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro pela França.

O filme era uma co-produção entre Brasil e França. Era uma adaptação de uma peça de Vinicius de Morais, que traça um triângulo amoroso em uma favela do Rio de Janeiro durante o Carnaval. Segundo Walter Webb, 88% dos recursos de produção eram do Brasil. No entanto, o governo brasileiro na época não queria que um filme que exaltasse a cultura negra representasse o País no exterior. Resultado: os produtores franceses inscreveram o filme como uma produção da França e arrebatou, além do Oscar, a Palma de Ouro em Cannes e uma série de outros prêmios.   

O diretor trouxe também uma mostra do troféu criado por ele mesmo: o cineasno. Na obra, vemos um burrinho sentado na cadeira de diretor. O troféu, segundo Webb, é entregue a quem é digno do prêmio. Uma produção da qual ele participou, inclusive, foi premiada com o cineasno: Revoada (2008).

Não sei se foi o domingo, a chuva forte ou o desinteresse no assunto, mesmo daqueles que sobrevivem ou tem olhares sobre a sétima arte. O fato é que essa é uma daquelas poucas oportunidades em Salvador de se discutir cinema, o fazer, a produção, a história, as desavenças e tudo o que se possa colocar em uma roda de panos limpos ou sujos. Walter Webb estará na cidade, ministrando sua oficina, que começa hoje, dia 21, e prossegue até o dia 1º de junho. O evento acontece no Colégio 2 de Julho

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