quarta-feira, 30 de maio de 2012

O documentário dos nossos sonhos perdidos


Werner Herzog é um cineasta diferenciado. É só ver a sua abordagem em filmes como Lessons of Darkness (1992), uma poesia apocalíptica sobre o Kwait, no período de guerra, rodada em 16 mm, em meio ao fogaréu dos poços de petróleo. Nesta semana, conferi um documentário mais recente, intitulado Caverna dos Sonhos Perdidos (2010).

O cineasta e sua equipe (que, na ocasião, foi reduzida a quatro pessoas) tiveram uma autorização sem precedentes para filmar dentro da caverna Chauvet (cujo nome foi dado em homenagem ao seu descobridor), localizada no sul da França, que guarda um tesouro artístico da humanidade: pinturas rupestres que seriam as mais antigas das quais se têm registro atualmente em nosso planeta (mais de 32 mil anos).

A partir daí, somos levados a uma expedição pela história da arte enquanto documento de percepção da realidade ao nosso redor. Herzog faz paralelos com os artifícios de sobrevivência dos seres humanos daquela época, com o apoio de arqueólogos e historiadores. Acima disso, conseguimos perceber ainda mais a importância da arte como meio de expressão.

São desenhos com traços muito bem definidos, alguns até sugerindo movimento (o que Herzog chamou de uma espécie de primórdio da experiência de proto-cinema). Os desenhos retratam principalmente animais e algumas poucas figuras surrealistas (como a junção de um homem e um leão). Através delas, vamos tentando deduzir o porquê de aquelas obras estarem ali e quais os seus reais significados, que foram evaporados com o tempo.

Em certas sequencias, somos convidados a “ouvir” o silêncio da caverna ou, simplesmente, contemplar aquelas imagens, fantásticas, por sua estética e por suas significâncias artística e histórica.

 Em determinado momento, o cineasta faz uma reflexão sobre o próprio fazer documentário, como forma de construir um olhar sobre a nossa realidade. E, nesse ínterim, nos questionamos: até que ponto estamos falando de um reflexo fiel do nosso real? Trata-se de uma construção espontânea ou algo forjado sobre o qual olhamos e nos enxergamos como parte da posteridade? Seriam os nossos sonhos perdidos?

De certa forma (inconscientemente ou não: isso nunca vamos saber), era o que queriam aqueles artistas: deixar um legado histórico sobre sua vivência naquele período. Muito mais do que um registro, aquilo era a construção de sua realidade, um olhar original e esteticamente bem trabalhado sobre algo que os circundava. Aquilo, em sua forma mais primitiva, mas espontânea, não deixou de ser um documentário.     

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