domingo, 27 de maio de 2012

Crítica: Os Vingadores


O cinema que não é arte

Carlos Baumgarten

Quem faz parte da geração dos anos 80, especialmente as pessoas do sexo masculino, certamente, deve se lembrar dos seriados japoneses que animavam as tardes da antiga Rede Manchete. Jaspion, Jiban, Changeman, só pra citar alguns exemplos, eram a “tosqueira” pura e simplesmente. Mas era a moda e fazia sucesso, com aqueles personagens maléficos de maquiagem forte e figurino exagerado, que lutavam contra nossos heróis de movimentos bruscos em um balé a la trash.

Pois bem, antes deles, tivemos a era dos comics, disputada acirradamente entre a Marvel e a DC, ou entre Homem-Aranha, X-Men e companhia limitada e Super-Homem, Batman e por aí vai. Todos tinham um motivo de ser e um foco. Em pleno século XXI, no entanto, vemos uma falta de objetivo por parte dessas superproduções de Hollywood, que estão trazendo os heróis dos quadrinhos de volta. Aliás, têm um objetivo bem claro: arrecadar bilhões ao redor do mundo. Mas só isso.

Os Vingadores é uma dessas produções. Fui conferir em uma sala comercial daqui de Salvador. Começando pelo local, lotado, mesmo já tendo estreado há algum tempo, boa parte do público não parava de conversar em toda a projeção. Isso sem contar aqueles que tentavam fotografar a tela com os seus celulares. O objetivo dos produtores, sem dúvida, foi alcançado. Não é a toa que Robert Downey Jr, que incorpora o Homem de Ferro, vai receber US$ 50 milhões, por conta do sucesso de bilheteria.

O longa reúne heróis pop da Marvel. Hulk, Capitão América, Viúva Negra, Gavião Arqueiro, Home de Ferro e Thor são convocados para uma batalha contra o “perverso” vilão interplanetário Loki (que é irmão de Thor) para evitar uma catástrofe mundial. Basicamente, esse é o enredo, não passando de uma premissa para a construção de cenas espetaculosas, muitas lutas coreografadas, explosões, perseguições, equilibradas a doses de humor.

A maior parte desses heróis já foi levado às telas em produções “independentes”. Lembra de Incrível Hulk (2008), com Edward Norton, Homem de Ferro (2008), com o mesmo Downey Jr, Thor (2010) e Capitão América (2011)?

Mas o roteiro é um grande fiasco aliado às interpretações forçosas dos atores, em um elenco que inclui astros experientes, como Samuel L. Jackson e Scarlet Johansson. Quando falei no início do texto sobre aqueles heróis toscos japoneses dos anos 80, estava querendo evidenciar a primeira referência que tive ao ver a projeção de quase duas horas. Aquelas expressões de bravuras desses heróis são tão forçadas quanto os movimentos daquelas moscas fantasiadas de Tóquio.

E não podemos nem colocar a responsabilidade em cima do pobre diretor Joss Whedon, afinal, sabemos que ele é apenas um mero funcionário em uma produção desse porte, e não tem nem o controle total sobre o corte final.

O vilão interplanetário é, também, ultrapassado, ingênuo e tem um figurino nada original. Leia-se: não estamos falando de mentiras excessivas, afinal, “assinamos” o contrato de veridicção. Estamos falando de um roteiro que parece que parou no tempo. Os produtores apoiaram-se na evolução gráfica dos efeitos especiais, para criar cenas milaborantes, planos sequências digitais, que parecem ter sido rodados com super gruas. Tudo é artificial ao extremo, mesmo se tratando de um filme de super-heróis.

É muito diferente de Superman – O Filme, dirigido por Richard Donner, em 1978, ou, mais recentemente, da nova roupagem de Batman, de Christopher Nolan, ou ainda o Homem-Aranha, de Sam Raimi, que conseguem aliar os espetáculos dos efeitos especiais a algo menos ridículo e mais convincente, no sentido fantasioso.   

Os Vingadores é um tipo de filme muito bem definido em um processo industrial: enlatado e voltado única e exclusivamente para o entretenimento. O público é formado por pessoas que procuram esse entretenimento ou então pelos fanáticos dos comics da Marvel. Resultado: pouca concentração. Não podemos chamar isso de cinema ou, sendo menos radical, não podemos chamar esse cinema de arte. Já ouvi algumas pessoas falando que cinema não é arte. Sob a ótica de produções como essa, realmente, não é.     

2 comentários:

  1. olá! é um bom texto, mas gostaria de colocar umas opiniões:

    -é indiscutivel que filmes como 'Os Vingadores' tem uma visão totalmente gananciosa, tratando-se de grana. Não discordo que é um absurdo saber que R. Downey Jr receberá 50 milhoes por isso. é irritante ter estas salas cheias, com conversas o tempo todo, fotos, etc etc etc etc.. mas isso justifica a idéia de que um filme assim não é arte? aliás, qual conceito de arte está sendo discutido? A arte precisa mesmo ser pura e estar livre de qualquer 'ganancia mundana' para ser arte?
    -Seria pecado uma arte voltada somente para o entretenimento? Quando vou ver um filme assim o que quero ter mesmo é uma diversão que só dure 2 horas, e isso faz bem ao meu dia. Acho que o problema mesmo está no poder alienador (grana, principalmente), que dificulta o acesso a outras formas de se sentir a arte.
    -Acho que essa discussão é facilmente levada à musica também, quando falamos de pagode/forró universitario e musica erudita. Mas porque dizer que pagode não é arte nem deve ser valorizado? Eu prefiro quando os compositores contemporaneos jovens pegam material musical do pagode e levam para uma orquestra (e ja vi isso acontecer muito).

    Bom texto, ainda assim! Abraços!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Gigito! Muito obrigado pelo seu comentário! Este é um espaço voltado, justamente, pra discutir ideias e ouvir opiniões diversas! Concordo com suas colocações. Creio que, inclusive, fui um pouco radical na minha crítica. O que me motivou, na verdade, foi quando ouvi alguns comentários de pessoas que não são da área, afirmando que cinema não é arte. E isso, acho eu, se deve ao fato de produções como Os Vingadores. Os conceitos de arte e cultura não são tão bem definidos, e acho que nem devem ser. Na verdade, é até bem complexo. O que acontece, na minha opinião, é que, quando se fala em arte, falamos de expressões originais, oriundas de uma inquietação e que tragam algum tipo de reflexão. É diferente do entretenimento, que existe pra divertir, única e exclusivamente. É como você escolher algum produto na prateleira de um supermercado. E esse filmes não são originados de artistas, mas de empresários, donos de indústrias. São filmes enlatados, feitos pra ganhar dinheiro. Cumpre o seu objetivo: diverte e arrecada. Vc tem artistas envolvidos, mas que não têm muito o que criar, pois são condicionados a agir como meros funcionários de uma empresa. Isso pode ser considerado uma expressão cultural. Acho que seria um conceito mais adequado, pois, como falei, queira ou não, representa um aspecto cultural, diverte o povo... É bom que existam, mas, na minha humilde opinião, não deveria ser visto enquanto obra de arte. Assim como a música massificada, creio que não se trata de arte quando se perde o caráter original e reflexivo, de inquietação, tanto por parte de quem cria, quanto por parte de quem contempla. Pagode, Axé, etc... pra mim, são expressões culturais, mas não artísticas. Claro, minha opinião hoje. Posso mudar e longe de mim em querer convencer alguém de que essa é a verdade absoluta!! Mas, muito obrigado por sua participação e continue comentando!!! Abraços!

      Excluir