sábado, 21 de abril de 2012

Todos os caminhos levam ao documentário


Carlos Baumgarten

Depois de duas semanas imerso em estudos, posso dizer: está tudo documentado. Confesso que tinha certa antipatia pelo gênero, se é que posso chamar assim. Quando comecei a me interessar pelo cinema, a minha paixão era a ficção, a criação de histórias, a criação de personagens. Na minha santa ignorância, essa era a única essência da sétima arte: inventar.

Quando entrei na faculdade de jornalismo e cursei a disciplina obrigatória de cinema, nosso professor programou uma apresentação de seminários em grupo, sobre diversos movimentos ligados à sétima arte. A distribuição seria através de sorteio. Não via a hora de poder estudar a Nouvelle Vague francesa, o Cinema Novo brasileiro, Neorrealismo italiano e por aí vai.  

Mas, para a minha decepção, naquele momento, meu grupo foi sorteado para apresentar um seminário sobre documentário. Foi duro aceitar. No entanto, depois de passar algumas semanas resgatando histórias e personagens que desenvolveram os principais movimentos do cinema documentário, percebi que se tratava de uma vertente muito rica.

Ainda assim, esse “muito rica” era extremamente limitado para mim. Talvez, pela formação em jornalismo, não havia percebido que essa limitação estava apenas na minha própria limitação em enxergar além. Co-dirigi um documentário ao lado do colega, Suâmi Dias, chamado 129.5 Decibéis, como trabalho de conclusão de curso.

Foi uma experiência muito boa, na qual adentramos no mundo produtivo do heavy metal soteropolitano. Trabalhamos com algo que gostamos dentro de um tema que nos dá prazer em estudar. Foi um documentário baseado em entrevistas, cujos personagens conduziam o recorte, não exatamente de uma história, mas de um fato, de uma realidade.

Como jornalistas, fizemos o nosso trabalho: informamos. Ensaiamos alguns riscos “metalinguísticos”, por assim dizer, talvez pela influência do Cinema Verdade, com a proposta de trazer uma reflexão acerca do próprio fazer documentário, mas ficou por aí.

Ao me formar, afastei-me da vertente, mais uma vez, apesar de ter rascunhado alguns projetos. Mesmo assim, insisti em tentar voltar ao cinema de ficção. Participei de uma oficina na Casa de Cinema da Bahia. Co-produzi, co-roteirizei e co-dirigi um curta de ficção intitulado A Hora da Razão que, por motivos diversos, não teve a sua montagem finalizada. Como relatei há algumas pessoas, foi uma experiência que não deu certo.

E aí, no meio de uma crise existencial dentro do cinema, acreditando na possibilidade de nunca poder enveredar pelo caminho certo, surge a Oficina de Cinema Documentário com Daniel Jariod, professor da Universidade de Barcelona. Posso dizer que as duas semanas de curso foram mais elucidativas do que qualquer duas décadas de estudos em cinema.

Acima de tudo, o professor Daniel nos abriu a mente sobre o que é documentário e qual o papel do documentarista. Documentário é cinema e o documentarista é um cineasta. Não estamos falando de jornalismo, estamos falando de arte e de uma maneira de contar histórias através de um olhar subjetivo, mas direto, sem farsas.

O documentário é a forma de construir uma realidade, no sentido de recortar uma história e contá-la através das imagens em movimento. E isso, como eu pensava há muito tempo, não é menos do que fazer cinema. Hoje, digo até que é muito mais do que fazer cinema de ficção, pois não há nada mais exuberante do que ouvirmos histórias reais de personagens reais.

Com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, com a licença da referência, podemos ir muito mais além do que criar, mas podemos evidenciar histórias, sem limites criativos e narrativos. A carga dramática permanece tanto quanto no cinema de ficção.

Que maravilha poder discorrer sobre a poesia de Werner Herzorg, enxergar a crueza de Frederick Wiseman, refletir com a “verdade construída” de Jean Rouch, o pioneirismo de Robert Flaherty, a estética de Leni Riefenstahl e ainda ver o Jogo de Cena de Eduardo Coutinho. Portanto, digo, neste momento, com a propriedade concedida pela oficina, que o documentário é, sim, uma vertente muito rica, ilimitada e, talvez, ainda tenhamos muito novos rumos a percorrer.    

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