segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Surpresas apenas aparentes

Carlos Baumgarten

O Oscar continua sem surpreender ninguém. Nesta noite de domingo, consagrou O Artista, com cinco estatuetas, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator. Isso indica um saudosismo da velha guarda hollywoodiana, que, com razão, sente falta da essência da linguagem cinematográfica como um todo, algo que o cinema mudo tinha que colocar em primeiro plano.

Esse saudosismo é tão grande, que os membros da Academia, formada por patriotas conservadores, preferiram premiar o francês Michel Hazanavicius como Melhor Diretor, do que o consagrado e cultuado cineasta Martin Scorsese, apontado, por muitos, como o favorito. A Invenção de Hugo Cabret acabou por conquistar apenas prêmios técnicos.

Esse favoritismo de Scorsese, no entanto, era apenas aparente. Muitos disseram que, por sua pincelada artística, saindo de seu estilo habitual (violência e submundo), o diretor de A Invenção de Hugo Cabret conseguiu levar às telas uma aventura suave, com uma narrativa contundente e estética primorosa.  

Assim como O Artista, A Invenção de Hugo Cabret homenageia os primórdios da sétima arte. Ou seja, os dois grandes favoritos estavam dialogando com o passado de sua própria arte e, implicitamente, chamando a atenção aos propósitos do audiovisual, que deve ser muito mais visual do que oral.

Se O Artista mostrou que a oralidade não é tão essencial quanto a captação expressiva através da câmera, Scorsese deu uma aula de como usar a tecnologia 3D em prol de uma obra cinematográfica singular.
 
O Artista, por sua ousadia e originalidade, mereceu todos os prêmios arrebatados nesta temporada. Para Scorsese, que conquistou o Globo de Ouro de Melhor Diretor, talvez fosse o momento de a Academia se redimir de uma vez com esse grande realizador, afinal premiá-lo por Os Infiltrados, em 2007, foi um grande nonsense dos membros desse “seleto” grupo, dentro de muitos outros ao longo de mais de 80 anos de história.

Outra surpresa aparente foi o terceiro Oscar da carreira de Meryl Streep, por sua elogiada atuação em A Dama de Ferro. Conquistar o prêmio por três vezes não é tarefa simples. Jack Nicholson foi o ator que mais foi premiado no Oscar (três, no total, sendo duas como Melhor Ator e uma como Melhor Ator Coadjuvante). Katherine Hepburn conquistou quatro vezes a estatueta de Melhor Atriz (1933, 1968, 1969 e 1982), sendo um recorde entre os gêneros em toda a história do Oscar.

Dessa forma, Meryl Streep entra para esse restrito grupo de atores consagrados com a premiação mais popular do cinema hollywoodiano. Viola Davis, de Histórias Cruzadas, era considerada favorita na categoria, tendo sido, inclusive, premiada pelo Sindicato de Atores. Mas os membros da Academia preferiram a incursão de Meryl Streep na performance de A Dama de Ferro. Sua vitória não foi uma total surpresa, mas era algo tido como incerto.

Para o Brasil, a presença de apenas um concorrente não foi suficiente para levar a estatueta para casa. A maioria conservadora e de “paladar” restrito da Academia não iria premiar a originalidade da música Real In Rio da animação Rio. Preferiu ficar no “normal”, com a Disney e os seus Muppets. Para se conquistar esse grupo, é necessário reverenciá-lo (como fez O Artista) ou realizar um filme, realmente, diferenciado para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira, mas que seja entendível por eles. Fora isso, será muito difícil. Mas, vale ressaltar, não é algo tão necessário. Se vier, será bem-vindo. Do contrário, não fará falta.

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