segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O cinema celebra a si mesmo

Carlos Baumgarten

John Gilbert foi um dos grandes astros do cinema mudo. A chegada do cinema falado causou um grande impacto negativo à carreira desse ator. Dizem que sua voz era inadequada para o cinema e não condizia com o seu porte físico. Reza a lenda que na primeira sessão de seu primeiro filme falado, a plateia caiu na gargalhada quando ele entoou as linhas primárias de seu texto.

O alcoolismo venceu John Gilbert, e ele morreu aos 39 anos, praticamente, esquecido pelo público que um dia o consagrou.

George Meliès foi um dos primeiros cineastas da história à enxergar o cinema como uma forma de tornar sonhos realidades. Ele presenciou a primeira exibição pública de uma fita cinematográfica, realizada pelos irmãos Lumière no final do século XIX. Meliès, que era ilusionista, ficou encantando com a invenção. Tentou comprar o equipamento dos irmãos, mas eles se negaram a vender.

Assim, ele optou por construir o seu próprio cinematógrafo, como era chamado o equipamento. Foi o primeiro a descobrir o poder narrativo da trucagem. Fez obras memoráveis, como Viagem à Lua (1902). Meliès, no entanto, não foi capaz de acompanhar os avanços técnicos do cinema. Morreu em um abrigo para artistas desamparados, em 1938.     

Hoje, o cinema passa por novas transições. A popularização das plataformas digitais, o cinema em três dimensões a disseminação de conteúdo via internet, tudo isso deve ser visto como uma espécie de quarta revolução na sétima arte (depois da trucagem narrativa, a linguagem de câmera e a inserção da CG) e, considerando um campo de maior amplitude, uma revolução no audiovisual. Já não é mais o futuro, e sim o presente.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos resolveu celebrar o cinema em todas as suas virtudes. Em O Artista, o ator Jean Dujardin (em uma performance bastante elogiada pela crítica em todo o mundo) é uma espécie de John Gilbert misturado a outros galãs do cinema mudo.

As imposições sociais, políticas, econômicas e tecnológicas ditam o gosto do público, que pode ser muito cruel na hora de esquecer aqueles que passaram anos o entretendo. A transição do cinema mudo para o cinema falado teve um grande impacto no mercado cinematográfico. Os músicos que tocavam ao vivo durantes as projeções dos filmes ficaram sem emprego. Os astros que não conseguiram se adaptar à oralidade também ficaram para trás. O próprio Charles Chaplin relutou, realizando filmes mudos já na era falada.

Já em A Invenção de Hugo Cabret, voltamos à Paris dos anos 30, conhecemos um velho ranzinza que esconde um segredo por trás de sua profunda tristeza e desgosto pela vida. Scorsese, que, além de cineasta, é um amante do cinema, resgata a história da invenção da sétima arte.

Os irmãos Lumière conceberam a possibilidade técnica de captar a imagem em movimento no ano de 1895. Mas, para eles, aquilo funcionava apenas como uma fotografia em movimento. Foi George Meliès que enxergou novas possibilidades com a aquela fantástica invenção. Ele levou a sua experiência como ilusionista para as telas do cinema.

Em 1914, David W. Griffith concretiza aquilo que chamamos de linguagem cinematográfica, o poder da narrativa e o seu aspecto ideológico.

Scorsese, então, une o primeiro inovador à tecnologia de última geração, fazendo sua primeira produção em 3D e, diga-se de passagem, seu primeiro filme infanto-juvenil, com uma grande homenagem ao cinema. A Academia reconheceu toda a técnica utilizada, mas não reconheceu a mão de seu realizador. No entanto, a premiação de Michel Hazanavicius foi justa, assim como seria justa a premiação para Scorsese.

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