segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A dialética "spielberguiana"

Carlos Baumgarten


O fade out ao pôr-do-sol revela o final do filme. Mesmo antes de a tela escurecer por completo, parte do público aplaude a projeção de Cavalo de Guerra (2011), o novo filme de Steven Spielberg, que estreou no Brasil na última sexta-feira. Mesmo para aqueles que não são cinéfilos ou críticos, Spielberg acaba sendo uma atração. Entre os cineastas de todo o mundo, talvez ele seja o pop star. 


Não poderia ser diferente, diante de uma carreira a la Midas. Desde o seu primeiro grande desempenho de bilheteria (Tubarão, de 1975), o diretor coleciona uma sequencia de sucessos de público e crítica, passando por obras como Os Caçadores da Arca Perdida (o primeiro Indiana Jones, de 1980), E.T.: O Extra-terrestre (1983), Jurassic Park (1993), sendo este último o maior sucesso de bilheteria da história do cinema até a chegada de Titanic, em 1997. 


Além disso, Spielberg assinou a produção de alguns clássicos modernos, como Poltergeist: O Fênomeno (1982) e a trilogia De Volta Para o Futuro (1985, 1989 e 1990), sucessos comerciais na sua época. Recentemente, atacou de produtor novamente em Transformers e suas franquias (entre 2007 e 2009), que fez o maior sucesso entre os fãs do gênero. 


Enfim, com esse currículo, podemos concluir, sem mais delongas, que Spielberg é um diretor extremamente comercial. Ele fareja o sucesso e o dinheiro. Mas, ninguém pode negar que ele só chegou aonde chegou por competência. A sensibilidade artística de sua direção é evidente em qualquer obra, seja na mais ficcional delas (como Minority Report: A  Nova Lei, de 2002), seja nos grandes dramas de guerra (a exemplo de A Lista de Schindler, de 1993, filme que lhe rendeu o primeiro Oscar de direção). 


É verdade que boa parte dos filmes de Steven Spielberg se apegam a um moralismo e sentimentalismo piegas. Para os cinéfilos e os críticos, isso vem como uma bomba de negativismo e até de cinismo. O equilíbrio vem, justamente, da parte artística. Cavalo de Guerra enquadra-se nessa dialética “spielberguiana”. 


O filme, adaptado do livro do escritor inglês Michael Morpurgo, narra a história de amizade entre um jovem, Albert, filho de um casal de fazendeiros pobres da Inglaterra, e um cavalo, Joey. O longa situa-se no período da I Guerra Mundial, última batalha em que cavalos eram utilizados no front. Para saldar as dívidas, o pai vende o animal a um tenente do exército inglês. 


A jornada de Joey inicia-se, então. Ele passa pela mão de diversas pessoas, de nacionalidades distintas, mas com uma paixão em comum: o amor pelo animal. Joey percorre os quatro anos de guerra (entre 1914 e 1918), sobrevivendo bravamente aos campos de batalha e às adversidades. Enquanto isso, Albert, que prometeu ao cavalo encontrá-lo, independente de qualquer coisa, mantém a esperança de estar com Joey novamente. 


Com referências aos westerns dos anos 60 e aos clássicos em technicolor, como ...E O Vento Levou (1939), Cavalo de Guerra traduz atmosferas bem definidas ao longo da projeção de quase duas horas e meia. O cenário bucólico da fazenda da família Narracott, onde Joey nasce, abre o colorido da paisagem, que parece não ter fim. Ao estourar a guerra, a cor se desbota e tudo fica mais claustrofóbico. 


A parábola que conta a história de amizade entre um animal e um ser humano pode, também, ser comparada às fábulas moralistas da Disney em início de carreira. Vale ressaltar que a personagem principal não é nenhum dos atores humanos, mas sim o cavalo Joey. Os diversos animais que interpretaram o protagonista conseguem, apoiados por efeitos especiais e técnicas de fotografia, transparecer expressões. Tudo isso é embalado por uma direção competente, uma fotografia excepcional, de Janusz Kaminski (parceiro de Spielberg desde A Lista de Schindler) e pela trilha sonora de John Williams, que não é das melhores, mas caí muito bem dentro da proposta visual do diretor. 


Há que se considerar o histórico pessoal de Spielberg. Filho de um ex-combatente da II Guerra Mundial, suas temáticas bélicas sempre ressaltam os “heróis” e a “bravura” daqueles que estão no front, “lutando pela liberdade”. “O amor à pátria acima de tudo”: é o que geralmente ele quer dizer. O Resgate do Soldado Ryan (1998), que lhe proporcionou o segundo Oscar da carreira, ilustra bem o quero dizer.  


O hiato existente entre Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008) e Cavalo de Guerra pode ter criado muitas expectativas entre críticos e cinéfilos que não foram alcançadas. Porém, entre o grande público o filme dá a entender que está sendo bem aceito. É forte candidato ao Oscar (mesmo que, muito provavelmente, não passe de indicações, podendo ganhar em categorias técnicas) e está concorrendo nas principais categorias do Globo de Ouro, que será entregue no próximo dia 15 de janeiro. 

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