sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Nossas canções

Redação


Todo ser humano com um mínimo de sentimento vai puxar da memória alguma música, de qualquer rótulo, que tenha marcado determinado período da sua vida. O que pode parecer um tema banal transforma-se em uma obra-prima nas mãos do documentarista Eduardo Coutinho. O novo filme do cineasta, As Canções, estreou nesta sexta-feira, dia 9, em diversas salas do Brasil. 


No filme, homens e mulheres cantam e contam as músicas que marcaram suas vidas. Como um típico filme de Coutinho, não vamos ouvir depoimentos das chamadas “fontes oficiais”. A especialidade do documentarista é explorar, exaltar e valorizar a vida humana como única, singular, individual inserida em uma coletividade. Em toda a sua obra, podemos encontrar essa vertente conduzida habilmente pelo cineasta. 


                            Foto: Divulgação
As Canções: homens e mulheres cantam e contam suas histórias


Os personagens de As Canções foram selecionados em diversos pontos da cidade do Rio de Janeiro, pela internet e anúncios de jornal. Os pesquisadores foram para as ruas segurando um cartaz com a seguinte pergunta: Alguma música já marcou sua vida?Cante e conte sua história. As pessoas se ofereceram espontaneamente para cantar sua música preferida e contar porque esta tem tanta influência em suas vidas, deixando registrado em vídeo. 


De três em três dias, os pesquisadores mostravam o resultado de seu trabalho de campo para Coutinho, e o diretor elegia os que tinham as melhores histórias e apresentavam o mínimo de qualidade no canto ao interpretar as músicas. Em dois meses de pesquisa, 237 pessoas participaram e 42 foram filmadas. No corte final do filme estão apenas 17 entrevistados, com idades entre 22 e 82 anos. 


As canções que marcaram as vidas dessas pessoas falam de dor, desilusões amorosas, saudade e amores não correspondidos. As composições de Roberto Carlos foram as mais cantadas e a versão brasileira de Lamartine Babo para o bolero Perfídia, de Alberto Dominguez, curiosamente é interpretada por duas pessoas. A lista inclui também letras de Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Chico Buarque e Tom Jobim, Jorge Ben Jor, entre outros.


A pesquisa passou pelo Largo da Carioca, Saara e a Rua 7 de Setembro, no Centro; pelas praias do Leblon, Copacabana e Arpoador, além da Feira de Ipanema e Morro da Babilônia, na Zona Sul; E na Zona Norte, a Praça Sãens Pena, o Piscinão de Ramos e a Feira de São Cristóvão. 


A internet também foi ferramenta para a seleção de entrevistados: Ramon, de 22 anos, que canta no filme uma composição própria chamada “Dó”, em homenagem ao pai já falecido, mandou um vídeo por e-mail e foi selecionado.


Para que os entrevistados apresentassem qualidade no canto, no dia da filmagem, contaram com o auxílio da preparadora vocal Cecilia Spyer. 


Maestro Coutinho


As Canções é o 12º longa-metragem de Eduardo Coutinho. Depois de um início de carreira dividido entre a ficção e o documentário, Coutinho optou pelo segundo a partir de uma profícua passagem pelo programa Globo Repórter, na década de 1970. Cabra Marcado para Morrer (1964-1984), seu acerto de contas com a História e com um projeto do passado, tornou-se um grande clássico do cinema brasileiro. 


                            Foto: Divulgação
Eduardo Coutinho dirige a espontaneidade humana


A partir do final da década de 1990 Coutinho se dedica intensamente ao cinema. As Canções é seu oitavo filme em 12 anos. Também fazem parte de sua filmografia: Santo Forte (1999), Babilônia 2000 (2000), Edifício Master (2002), Peões (2004), O Fim e o Princípio (2005), Jogo de Cena (2007) e Moscou (2009). 


Citando Edifício Master, não há como deixar de lembrar a passagem de um morador que conheceu Frank Sinatra pessoalmente. Um senhor de idade, envolto por uma solidão, evoca todo o seu sentimento ao interpretar a famosa canção My Way, com tanta expressividade que nenhuma ficção seria capaz de capturar. 

A solidez do método de Coutinho e sua sensibilidade para ouvir pessoas comuns são frutos de laboriosa reflexão sobre o seu ofício ao longo de inúmeros documentários em vídeo realizados nos anos 1980 e 1990, entre os quais se destacam Santa Marta: Duas Semanas no Morro (1987) e Boca de Lixo (1992). 

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