terça-feira, 8 de novembro de 2011

A qualidade pela curiosidade

Carlos Baumgarten


Pra quem mora em Salvador, sabe-se que é difícil desfrutar de um espetáculo de alto nível, com raras exceções na área da música. Porém, o que predomina (não só aqui, claro, mas com muito mais força na nossa região) é a cultura do vazio. Especificamente em Salvador,  a axé music , que só serve pra pular, incendeia os nossos ouvidos e são raras as sessões alternativas de bons filmes à margem do circuito comercial. 


Fora isso, nós, baianos, estamos ferrados, quando o assunto é cultura, mesmo sendo um dos maiores berços culturais do Brasil. Na última quinta-feira, dia 3 de novembro, recebemos o espetáculo teatral The Infernal Comedy: Confissões de um Serial Killer, no Teatro Castro Alves. 


Acredito que se perguntar à maioria das pessoas, que estava no teatro naquela noite, do que se trata o espetáculo, poucos terão a resposta na ponta da língua. O grande atrativo era a presença do ator John Malkovich na peça, interpretando a personagem real Jack Unterweger, um serial killer que tinha o charme para seduzir as mulheres, mas tinha esse pequeno “desvio” de enforcá-las com os seus próprios sutiãs. Assim, curiosos e, principalmente, cinéfilos, não lotaram, mas compareceram em um bom número às poltronas do Teatro Castro Alves, diante da insignificante divulgação que a peça teve.


A peça foi escrita em forma de monólogo, sob um gênero de humor ácido, alternando com passagens musicais, acompanhadas pela orquestra barroca Musica Angelica e por dois sopranos. Na história real, Jack Unterwger escreveu uma autobiografia enquanto esteve preso. Seu livro tornou-se um bestseller e a justiça concedeu liberdade ao assassino, considerando que ele estava recuperado e reformado. 


Solto, virou uma celebridade, mas logo viria a cometer novos crimes. Foi preso em 1992 e dois anos depois se suicidou enquanto cumpria a sua pena.  Com a direção de Michael Sturminger, com a orquestra conduzida pelo maestro Martin Haselböck, o trabalho experimental apresentado em vários palcos ao redor do mundo tem seus méritos pela inovação. 


Segundo o próprio diretor, foi uma maneira de retomar essa relação do teatro com a música clássica, por meio de uma história real. Malkovich entra no palco, já como a personagem, para apresentar o seu livro. O monólogo começa em ritmo de stand up comedy, mas logo ganha pitadas de drama e suspense. 


O trabalho de Malkovich, apoiadas por cantoras de extrema pureza vocal, é majestoso e justifica o reconhecimento enquanto ator. No entanto, a peça em si deixa a desejar, ao perder o ritmo. As doses de humor, drama e suspense acabam se desequilibrando (Sim! Eu fui um desses curiosos que esteve no teatro no último dia 3 de novembro). 


No entanto, acho que ninguém ligava pra isso no Teatro Castro Alves. Em um daqueles momentos que só os analistas poderiam explicar as atitudes de fanáticos, Malkovich atira uma margarida despedaçada para fora do palco. Ela cai a alguns centímetros de uma espectadora que não contou conversa: levantou de seu assento (na primeira fileira) no meio da peça para guardar um “pedaço” de Malkovich com ela. 


É esse tipo de reação que esperamos da maior parte do público presente. Ninguém está acostumado a ver astros de Hollywood nos palcos dos teatros brasileiros, ainda mais nos nossos palcos baianos. É mais uma atração pela curiosidade do que pelo espetáculo. É diferente de vermos um Namíbia, Não, dirigido por Lázaro Ramos. E, provavelmente, 90% dos presentes irão dizer que adoraram o espetáculo, mesmo sem saber exatamente do que se trata.  


Pode ser um passo para que Salvador passe a diversificar a sua oferta de cultura, quem sabe. Pode ser que não, com o já vimos em outras ocasiões. Vamos esperar que esses espetáculos cheguem à primeira capital do Brasil, mas que o público confira pela sua qualidade, e não apenas pela curiosidade.

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