segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Ao vovô, com carinho

Davi Carneiro
Let´s Go Bahia


Quando a carioca Cecília, 34,  resolveu adaptar Capitães da Areia como obra de sua estreia na direção de longas, sabia que iria enfrentar o enorme peso da responsabilidade. E não é para menos. A cineasta iria, não apenas, filmar o livro mais vendido de um dos escritores mais importantes do Brasil. Iria, também, encarar o desafio de dar vida à obra mais influente de umas das pessoas mais queridas em sua vida: o seu próprio avô, Jorge Amado.
Mas, Cecília Amado parece não se importar muito com essa cobrança. Muito pelo contrário: mantém o olhar sereno e abre um delicioso sorriso, como só aqueles que tem a certeza do dever comprido conseguem abrir.

Ao narrar cinematograficamente um ano na vida dos Capitães da Areia - marcado por festejos do dia de Iemanjá, data emblemática do calendário baiano - a cineasta imprime um olhar próprio pautado naformação humanista que herdou do avô e traz a tona questõescomo superação, amizade e lealdade. Assim como no livro de Jorge, os meninos carentes de Cecília - apesar de sujos, vestidos com farrapos e semi-esfomeados - são, em verdade, os donos da cidade, os que a conhecem totalmente, os que totalmente a amam, os seus poetas.

A diretora- que começou a fazer cinema em 1995 e fez carreira nos sets de grandes cineastas como Cacá Diegues, Sérgio Resende e Cao Hamburger – recebeu a equipe de Let’s Go para uma deliciosa conversa sobre o filme e a obra de seu avô.
                            Divulgação/Imagem Filmes
Cena de Capitães da Areia, dirigido por Cecília Amado


Cecília, quais as suas maiores influências quando se fala em direção cinematográfica?
Dentre os muitos cineastas que me encantam tem um nome que eu trabalhei que é muito próximo da minha maneira de trabalhar: o Cao Hamburguer. Ele é um diretor muito detalhista, barroco e que faz um trabalho bastante visceral e complexo. Já no cinema internacional, não poderia deixar de citar os grandes como Truffaut, Fellini e Bertolucci, que é minha grande paixão. Além disso, gosto muito da geração de cineastas que vieram de forma bastante instigadora e promovendo uma nova linguagem, como o Lars Von Trier e Michel Gondry.

As aventuras de Pedro Bala e seu bando povoam o imaginário popular desde 1937 e, desde então, foram mais de cinco milhões de exemplares vendidos. O que representa ter Capitães da Areia como seu filme de estreia?   
Eu gosto de dizer que foi Capitães quem me escolheu e não o contrário. Além de ter personagens apaixonantes, essa obra é um prato cheio para qualquer cineasta, poisretrataum drama social importantíssimo, além de ser extremamente visual e cinematográfica. O livro me deu a oportunidade de fazer umapelícula lírica e poética e, ao mesmo tempo, com potencial comercial raro para um filme de arte. Isso é muito bacana porque possibilita me comunicar com várias plateias, públicos  e cantos do Brasil.

Como é voltar a Salvador para dar essa nova roupagem a essa Bahia negra, misteriosa e cheia de belezas que seu avô representou tão bem?
Eu sou apaixonada pela Bahia e, apesar de ser carioca, aqui é minha casa. Eu fui nômade durante a minha vida, morei em vários lugares do mundo e Salvador sempre era meu porto seguro. Meu avô, por sua vez, era um apaixonado pelo povo da Bahia. E poder falar desse olhar de Jorge Amado para as novas gerações é algo fantástico.

Sem pensar muito, qual a primeira coisa que surge na lembrança quando você escuta a palavra avô?
A primeira coisa que me vem, quando penso nessa palavra,  é a cadência da voz de Jorge quando ele nos contava alguma história. Acompanhei a época em que ele escrevia alguns dos seus últimos livros e ele adorava ler um trecho para a gente. Ou então alguma das muitas carta que ele recebia de leitores de mundo inteiro. Eu me lembro bem da cadência da sua voz ... e aquilo era uma coisa, o ritmo, a respiração. É algo que só os grandes contadores de história conseguem ter.

E, na sua opinião, qual foi a característica mais marcante dele?
A generosidade. Ele era uma pessoa extremamente humanista. Quando ele gostava de alguém, nada importava: a classe social ou a cor da pele ou se era politicamente oposto, nada disso influenciava. O que importava era se era amigo e tinha uma boa historia para contar.

Seria esse o maior legado deixado por ele para você?
Sim, seria essa visão humanitária e positiva do ser humano. Não é só tratar bem o próximo ou falar bem da Bahia por obrigação, mas sim, por prazer e por, de fato, ser apaixonado e amar esse povo. Além de ser Amado, ele amava bastante. Jorge tinha um coração enorme.

Seu avô era amigo de muitos cineastas e suas obras são extremamente cinematográficas. É verdade que ele tinha um sonho de ser diretor de cinema?
Sim. Quando eu comecei a fazer cinema, em 1995, ele me chamou e acabou confessando isso. Ele disse que o seu sonho era ter sido cineasta, então ele me apoiava muito. Não sei se ele tinha dito só para me agradar, mas talvez isso explique o porque seus livros são tão visuais e cinematográficos.

Quando você leu o livro, conversava com seu avô sobre isso?
Nesse momento especificamente a gente estava um pouco distante, pois foi a época que morei for a do Brasil. Minha adolescência foi muito próxima a ele, a gente era vizinho em Paris, se frequentava bastante [Cecília morou na Europa dos 13 aos 17 anos]. Mais adiante, no inicio dos anos 90, eu presenciei ele dando algumas entrevistas falando de Capitães e lembro o quanto ele dizia que a problemática dos meninos abandonados continuava existindo e o quanto o livro continuava contemporâneo e atual.

É verdade. A problemática dos meninos de rua continua extremamente atual. Como você enxerga essa relação do livro com a atualidade?
Capitães continua atual no bom e no mal sentindo. A situação dos meninos de rua é absolutamente semelhante a essência do que foi escrito no livro, principalmente na forma como se relacionam em grupo e com a sociedade. Por outro lado, meu avô descreveu esses personagens com bastante humanismo, energia e heroísmo. Quando resolvi adaptar essa história, precisava conhecer os Capitães da Areia de hoje e descobri, não só que eles tem o mesmo drama do livro, como têm, também, essa mesma criatividade, força e bravura.

Os protagonistas do filme são meninos de comunidades carentes baianas. Como foi trabalhar com “não atores”?
Optamos por procurar “não atores”, meninos de comunidades que se aproximassem ao máximo da realidade dos personagens. Eu queria a espontaneidade, um elenco de jovens com idades entre 12 e 16 anos que, depois do filme, não ficassem abandonados, tivessem um acompanhamento social. Então fui a 22 ONGs que trabalham com dança, capoeira e teatro, e cheguei ao grupo.

Como foi a seleção?
No final de 2007, reuni 1.200 jovens. Depois de seis meses de pesquisa, reduzi o grupo para 90. Aí pedi que eles fizessem dois meses de oficina teatral e ficamos com 26. Então lhes apresentei os papéis e fizemos algumas experiências até encontrar o time.

Como foi a concepção e a escolha da trilha sonora produzida pelo Carlinhos Brown?
Carlinhos é um desses baianos amados que aprendi a amar com bastante vigor. Ele foi uma das primeiras pessoas escolhidas para fazer parte da equipe essencial do filme, pois achava que só ele poderia fazer a trilha sonora. O filme é bastante musical e eu precisava que ela percorresse esses climas, nuances e transformações vividas pelos personagens. O Carlinhos é um músico completo e que une ritmos pops, africanos, latinos, além de ter baladas românticas lindas. Ele é um grande tradutor de Jorge Amado e da baianidade na contemporaneidade.

Cecília, você está usando um brinco no formato de Iemanjá, além de ter uma tatuagem em homenagem a esse orixá. Qual a sua relação com a Rainha do Mar?
 (Risada) Eu sou filha de Iemanjá. Desde pequena frequentei, como simpatizante, o Gantois e o Axé Opô Afonjá, onde meu avô era obá de Xangô. O filme é, na verdade, uma grande oferenda a ela, que é a nossa mãe maior e do povo da Bahia.  Ele se passa na beira do mar e conta a história de um ano marcado por festas de Iemanjá. Ela está, também, muito presente na trilha do Carlinhos. Os Capitães da Areia, assim como toda a Bahia, são filhos do mar. 

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