segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A crise

Carlos Baumgarten


Não foram poucas as tentativas de se impor contra o imperialismo do cinema norte-americano. Mas a verdade é que todos esses movimentos atingiram as camadas intelectualizadas da sociedade, os esquerdistas, os interessados em política social. O grande público estava atrás do cinema de entretenimento, e é isso que Hollywood oferece até hoje. 


Muitos dizem que a linguagem cinematográfica está em crise. Ouvi isso do crítico André Setaro. O cineasta holandês Leonard Rettel Helmrich (foto) também concordou com tal afirmativa. Então, fica a pergunta: será que tudo o que podia ser explorado no cinema, enquanto linguagem, já foi explorado? 






O boom da computação gráfica dos anos 70, com os Spielbergs e Lucas trazendo suas histórias fantasiosas tinha uma grandeza comercial muito maior do que a proposta de se fazer um cinema cru. A evolução técnica dos efeitos especiais é ainda um grande chamariz de público. De Guerra nas Estrelas, na década de 70, a Avatar, nos anos 2000, da CG ao 3D, a milionária indústria cinematográfica não perde o caminho do ouro. 


Algumas tentativas de inovar, como o Dogma dinamarquês dos anos 90, ainda nos oferecem uma ponta de esperança. O próprio Leonard Rettel Helmrich desenvolveu o que ele chama de “single shot cinema”. O equipamento, criado por Helmrich, permite que o operador de câmera tenha uma mobilidade maior, podendo filmar longas tomadas, adotando perspectivas favoráveis à narrativa. 


A narrativa cinematográfica, diga-se de passagem, é identificada, por muitos, através da edição, ou seja, é a montagem do filme que conta uma história. Seria a montagem a essência da narrativa cinematográfica? É lógico que muita gente não vai concordar. Em conversa com Leonard Rettel Helmrich (esse assunto será abordado com mais profundidade em um próximo post), pude perceber, mais do que nunca, que a essência da narrativa cinematográfica está no movimento de câmera. 


Helmrich disse: “é através da perspectiva do olhar que você estará contando algo”. Uma câmera na mão, um travelling, uma panorâmica, as mudanças de ângulo... são essas escolhas que permitem a um diretor conta a sua história. A montagem é o toque final ao processo. Mas, na invenção dos irmãos Lumière, nada pode ser mais essencial à narrativa do que a escolha do movimento de câmera. 


Novas plataformas estão aí, novas formas de produção também e, por que não, novas formas de enxergar e fazer o cinema. O importante é que não se perca a essência.

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