sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Co-produção internacional pode ser um dos caminhos para superar problema da distribuição

Carlos Baumgarten
Foto: Ali Gandschi


Técnica aprimorada, sensibilidade à flor da pele, roteiros bem redigidos, orçamentos de produção acessíveis. Se dependesse apenas desses fatores, o cinema brasileiro poderia decolar. Entretanto, existe um grande gargalo presente, não apenas na nossa sétima arte, mas em quase todas as produções independentes ao redor do mundo. É a distribuição. 


Finalizar um filme está mais alcançável. Mas levá-los ao cinema está cada vez mais difícil. Concorrer com Hollywood e as grandes produtoras brasileiras (Globo Filmes, por exemplo) não é tarefa fácil. Uma alternativa, que não pode ser considerada a salvadora da pátria, mas já seria um caminho, é o processo de co-produção internacional. 


A diretora do Festival de Berlim, Sonja Heinen (foto), entende bem do assunto. Ela é uma das responsáveis pelo Co-Production Market, evento que acontece no festival alemão e reúne produtores com projetos com potencial para conseguir parceiros internacionais. Além disso, ela integra o World Cinema Fund, um fundo de apoio para projetos de todas as partes do mundo, que contam com o apoio de financiadores alemães. 


Sonja esteve em Salvador, no final do mês de julho, para participar de uma mesa redonda sobre as possibilidades de desenvolver um projeto de co-produção internacional, durante o CineFuturo (VII Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual), que aconteceu na capital baiana entre 25 e 30 de julho. Sonja concedeu uma entrevista ao Nicotina, Cafeína e Cinema, na qual ela apresenta alguns mecanismos presentes no Festival de Berlim que podem oferecer boas contribuições para produtores independentes. Confira: 


Nicotina, Cafeína e Cinema – Como a senhora vê o atual panorama do audiovisual no mundo? As co-produções internacionais seriam uma boa alternativa para superar o problema da distribuição? 


Sonja Heinen - Eu não posso dizer que as co-produções internacionais são, realmente, a arma secreta para superar as dificuldades de distribuição. No entanto, se você encontrar um co-produtor para o seu projeto no exterior, isso seria um bom sinal para o fato de que aquele determinado país estaria interessado no seu filme. E a distribuição de filmes independentes será sempre um negócio arriscado. As co-produções internacionais, realmente, não vão alterar essa realidade. Mas há uma consciência geral de que as co-produções internacionais oferecem melhores oportunidades para os filmes, a exemplo da participação em festivais. 


N-2C – Como funciona o Co-Produtction Market, no Festival de Berlim?

SH – O Co-Production Market, no Festival de Berlim, é, como dizem, a “casa” para os produtores com experiência em co-produções internacionais. Nós selecionamos projetos com potencial internacional organizamos reuniões entre os produtores, com o objetivo de ajudá-los a encontrar bom parceiros ou financiadores para os seus projetos. Nós selecionamos cerca de 35 dos mais de 600 projetos enviados. É claro que a qualidade do projeto é o critério mais importante. Porém, é preciso avaliar a viabilidade para encontrar parceiros internacionais. Além das reuniões, nós organizamos uma conferência e uma mesa redonda para discutir as tendências das co-produções internacionais, além de possibilitar a troca de contatos e experiências entre os produtores. 


 N-2C – Quais os critérios que um projeto cinematográfico deve seguir para despertar o interesse de parceiros internacionais?


SH – O principal, para cada parceiro internacional, é apresentar uma boa história, original, autêntica. Dessa forma, o produtor sempre encontrará parceiros, sem dúvida. Mas, é preciso atentar para os critérios estruturais. É um projeto que envolve parcerias. Portanto, não se pode pensar em montar um projeto pensando apenas em recolher dinheiro do exterior. Algumas questões ajudam a estruturar o projeto. O produtor deve observa ser é possível encontrar financiamento para o projeto fora do país de origem, focar onde ele quer que o seu filme alcance um bom público e avaliar em quais mercados ele poderia ter um bom desempenho. 


N-2C - Como a senhora avalia o cinema brasileiro de hoje? Estamos em um patamar no qual podemos apostar em co-produções internacionais para passar pelo gargalo da distribuição?

SH - O cinema brasileiro tem uma história importante. Na minha opinião, tem se tornado cada vez mais interessante, por valorizar histórias locais. E eu penso da seguinte forma: quanto mais você explora o local, mais internacional pode se tornar o seu projeto. Se a história é autêntica, é universal e todos no mundo, de alguma forma, vão compreendê-lo. Essa é uma base muito boa para superar as dificuldades de distribuição, mas os mercados são bastante difíceis. No entanto, acho que às vezes podemos ter a felicidade de ver um filme independente ser bem sucedido em todo o mundo, mesmo que ele tenha uma distribuição muito menor do que um filme dos EUA, por exemplo. O Brasil tem hoje uma estrutura de financiamento muito boa e internacionalmente competitiva para filmes locais e também para co-produções internacionais. Existem os fundos públicos, premiações, créditos fiscais, entre outros. Assim, a base para a colaboração internacional está no próprio país, definitivamente.


N-2C -  A senhora integra também o World Cinema Fund, correto? O que seria esse órgão e como os produtores podem buscar apoio através dele? 


SH - Sim, isso mesmo. O World Cinema Fund é o fundo de apoio do Festival de Berlim para pequenos filmes. Alguns exemplos de filmes que apoiamos desde o início de nossas atividades, em 2004, são: por exemplo: The Milk of Sorrow (ClaudiaLlosa, Peru, vencedor em Berlim), Uncle Boonmee (Apichatpong Weerasethakul, Tailândia, vencedor de Cannes), Post Mortem (Pablo Larrain, Chile, Suely Veneza), entre outros.  Apoiamos a produção de filmes da América Latina, África, Oriente Médio, Europa Central e Sudeste da Ásia e no Cáucaso. É um fundo voltado para filmes artísticos com orçamentos menores, que, talvez, de outra forma, não poderiam ser realizados. Nosso orçamento anual é de menos de 400 mil euros, mas o dinheiro pode ser gasto por completo na região de origem do filme. Mas, uma vez que um projeto é aprovado, o produtor brasileiro, por exemplo, precisaria de um parceiro alemão para acessar ao dinheiro. Produtores brasileiros podem enviar seus projetos diretamente para nós. Nosso último prazo se encerrou no último dia 4 de agosto. O próximo será em março de 2012.

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