sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A Alegria aborda imaginário adolescente

Carlos Baumgarten
Fotos: Divulgação


Marina Meliande e Felipe Bragança, diretores de A Alegria


Estreia nesta sexta-feira, em circuito nacional, o longa A Alegria, dos diretores Felipe Bragança e Marina Meliande. Antes de chegar ao Brasil, o filme já rodou por Cannes, em 2010, na Quinzena dos Realizadores, e brilhou nos Festivais de Santa Maria, em Portugal, e de Roterdã. Além disso, passou pelo Festival de Tiradentes e recebeu dois Candangos no Festival de Brasília. 


Com grandes festivais no currículo, a estreia de A Alegria no Brasil traz uma grande expectativa, para o público e para os diretores. Felipe Bragança, co-diretor do longa, afirma que a recepção da produção nos festivais pelo qual passou foi diferenciada, mas extremamente positiva. “Seguimos um caminho diferente. Chegamos primeiro lá fora e agora vamos nos apresentar, por definitivo, no Brasil”, explica o cineasta. 


Felipe afirma que, em Cannes, houve uma boa repercussão entre os críticos. “O Festival de Cannes possui uma vertente mais intelectual. Tivemos um bom desempenho lá e na Europa de uma forma geral”, diz. Já nos Estados Unidos, ainda conforme o diretor, a repercussão foi maior entre o público jovem. “Não se trata de um filme sobre a rotina adolescente, mas é uma abordagem mais ampla, partindo do imaginário desse público”, conta Felipe. 


O imaginário adolescente é o eixo do longa, que já passou
por Cannes, Portugal, Roterdã, Tiradentes e Brasília


A Alegria tem a história focada em Luiza, uma jovem de 16 anos que não aguenta mais ouvir falar no fim do mundo. Em uma noite de Natal, seu primo João desaparece pelas ruas do Rio de Janeiro. Semanas depois, enquanto Luiza passa dias sozinha em seu apartamento na Zona Sul carioca, um misterioso visitante bate à sua porta. A partir dessa noite, coisas novas e estranhas começam a acontecer.    


“Apesar de se passar no Rio de Janeiro, o filme não foca na adolescência carioca. Buscamos utilizar uma linguagem com a qual as pessoas, de outros grupos, possam se identificar em qualquer parte do Brasil”, pontua Felipe. Essa ideia começou a se desenvolver em 2007, quando Felipe e Marina escreveram a primeira versão do roteiro. “Fizemos alguns estudos desse imaginário juvenil, ao mesmo tempo que buscamos repensar a cidade do Rio de Janeiro a partir desse imaginário”, diz. 


Nessa perspectiva, Felipe conta que o interesse na juventude era premissa estética para construirmos alguma coisa renovada em relação à representação da nossa cidade (Rio de Janeiro) nos dias de hoje. “Há um desejo de lançar um olhar sobre questões da formação e identidade de uma geração crescida de 1992 para cá,  em um país e numa perspectiva planetária de utopias rarefeitas e referenciais políticos amenizados. Um desejo de falar de personagens com olhares livres, da utopia dos meninos de hoje. Queríamos olhar esse mundo a partir dos afetos deles, de uma forma delicada, mas não melancólica”, detalha o cineasta. 


Assim, o projeto dos jovens diretores foi aprovado no edital da Petrobrás no final de 2007. “Para termos uma liberdade artística maior, optamos por fazer o filme através da nossa própria produtora, a Duas Mariola”, explica. O norte do roteiro era construir uma fábula em que a cidade saísse respirando novos ares através do corpo de Luiza. “É um filme, portanto, que fala dos fantasmas do Rio, de todas as ordens”, finaliza Felipe. 


A Alegria é um dos longas concorrentes da Mostra Competitiva no Panorama Internacional Coisa de Cinema, que começou nesta quinta-feira, em Salvador, e prossegue até o próximo dia 25. A programação pode ser conferida no site www.coisadecinema.com.br. 


Política de Estado para distribuição e as novas tecnologias


O cineasta Felipe Bragança conversou com o Nicotina, Cafeína e Cinema, também, sobre temas mais gerais, que dizem respeito à sétima arte. Um ponto destacado pelo co-diretor de A Alegria é a falta de uma política de Estado voltada para distribuição, um dos principais gargalos do cinema brasileiro atualmente. “Já existe uma política fomento à produção consolidada. No edital da Petrobrás, por exemplo, tivemos a oportunidade de fazer um filme com um orçamento de R$ 1 milhão.Porém levamos dois anos para deixá-lo pronto e começamos a rodar por festivais, até que em 2011 chegamos em circuito nacional”, aponta Felipe.


Falando em novas tecnologias, o diretor acredita que as plataformas, atualmente, disponíveis podem ser, em parte, uma alternativa à dificuldade distribuição, no sentido de alcance de público. “Sim, a internet pode ser um aliado, mas não é a solução definitiva. Projetar um filme para internet é diferente de elaborar um longa para o cinema. É preciso entender a internet como um complemento, um avanço, uma plataforma onde você pode encontrar coisas inusitadas e, a partir daí, ser descoberto e desenvolver novos trabalhos”, diz.


Mas, para Felipe, a internet não banalizou o fazer cinematográfico. “Todo mundo pode escrever, mas nem todos vão se tornar escritores profissionais. É o mesmo raciocínio. Muitas pessoas podem fazer filmes e colocar na internet hoje. Mas isso não significa que eles vão se tornar cineastas. O diretor de cinema, em primeiro lugar, deve se preocupar com a estética e com a linguagem cinematográfica, e não são todos que vão ter atenção a esse processo”, conclui.  

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