sábado, 30 de julho de 2011

O velho tiro no pé

Carlos Baumgarten


É a situação de sempre. Crie uma polêmica, imponha a proibição e você sempre terá alguém para burlar a lei. Mais uma vez, o puritanismo hipócrita da nossa sociedade deu um tiro no pé ao proibir a exibição do filme A Serbian Film – Terror Sem Limites. O Congresso Brasileiro de Cinema (CBC) divulgou um manifesto repudiando tal atitude.

O que acontece é o seguinte: o filme em questão é extremamente violento e, pelo que sabemos, de extremo mau gosto. Entretanto, esse mau gosto é relativo e dependente da perspectiva de quem assiste e, além do mais, não é crime ter mau gosto. A Serbian Film conta a história de um ator pornô aposentado que resolve voltar à ativa, a fim de ganhar uma grana.

Porém, ele descobre que o projeto é macabro, e inclui cenas de estupro e pedofilia. Ao recusar, o ator se vê coagido pelo diretor a continuar. Misteriosamente, ele “apaga” e acorda todo coberto de sangue, sem saber o que aconteceu. Ao investigar o caso, o ator descobre que foi drogado e teve os seus instintos sexuais e violentos aflorados, cometendo inúmeras atrocidades.

Essas inúmeras atrocidades incluem um estupro de um recém-nascido e atos de necrofilia. Por essas e outras, a justiça no Brasil (e em alguns países da Europa) decidiu, não apenas podar o filme do cineasta sérvio Srdan Spasojevic, mas censurá-lo de uma vez. E aí  vem a pergunta: por que?

Se o filme não está de acordo com os seus padrões éticos ou morais, ou provocará náuseas em você, não assista. A censura estaria na faixa etária de 18 anos em diante e, a não ser que um jovem falsifique a sua identidade, menores não teriam acesso a esse conteúdo nas telas do cinema. Para completar, se a justiça tivesse ficado quieta, talvez o filme de Spasojevic passasse despercebido.

Como a justiça resolveu agir, a curiosidade de todos se aflorou: “o que será que esse filme tem de tão forte para ser proibido”. Eu, particularmente, já ouvi algumas pessoas dizerem que vão baixar A Sebian Film na internet. Ou seja, esse alarde de nada adiantou. Além de ter acesso, e também correr o risco de dar a acesso a jovens menores de idade (já que eles manjam bastante dessas novas tecnologias), a justiça incentivou o público a cometer um ato criminoso, que é a pirataria.

Essa é mais uma prova que a censura é um retrocesso, em qualquer setor da nossa sociedade. Mais uma vez, repito: melhor seria ter ficado quieto. O efeito da curiosidade não iria desabrochar nas pessoas e o filme, provavelmente, ficaria algumas poucas semanas em cartaz, recebendo uma meia dúzia de pessoas que, em sua maioria, não recomendariam o filme. Fica a lição para as próximas polêmicas. 

Um comentário:

  1. É, Carlinhos, em mim vai fazer, justamente, esse efeito mesmo. Já tinha ouvido falar alguma coisa desse filme e agora vou ter que assisti-lo. Como não sou de baixar nada na net, vou ver com alguém que saca pra me ajudar. Você disse tudo: a censura instiga o desejo pelo proibido.

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