sábado, 11 de junho de 2011

Uma aula de cinema

Carlos Baumgarten


Reprodução

Todo crítico de arte é uma figura controversa. Pelo menos, é o que muitos dizem. E o que dizer do baiano André Setaro (foto)? Há 32 anos, ele é professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, lecionando disciplinas ligadas ao audiovisual.

Formado em Direito em 1974, nunca exerceu a profissão. Preferiu o jornalismo, através da qual pôde se aprofundar no mundo apaixonante da sétima arte, realizando um Mestrado em História e Teoria da Arte. O arcabouço cinematográfico de Setaro, como o próprio afirma, é autodidata.

“Primeiro, na infância e na adolescência, o contato com o cinema de gêneros do cinema americano e, depois, vim a frequentar o Clube de Cinema da Bahia, presidido por Walter da Silveira, aonde vim a conhecer e entender o cinema como expressão de uma arte”, relata o professor.

No Clube de Cinema, Setaro conheceu o expressionismo alemão, o realismo poético francês, a escola de documentários inglesa, o neorrealismo italiano, a nouvelle vague, o maravilhoso cinema japonês de Yasujiro Ozu, Kurosawa, Kenji Mizoguchi, a anti-narrativa de Michelangelo Antonioni, o cinema polonês da Escola de Lodz, entre tantos outros.

 Questionado sobre o que o levou à crítica, ele responde: “Tinha um amigo que escrevia no suplemento dominical do extinto Jornal da Bahia e comecei, bissextamente, a publicar na sua página. Em agosto de 1974, dei início à minha colaboração, com uma coluna diária, na Tribuna da Bahia, onde escrevo até hoje (mas, nos últimos anos, somente às quintas)”.

Para o professor, o grande cinema já morreu. “Sem querer desestimular pessoa alguma, não seria, hoje, se jovem fosse, comentarista cinematográfico. Existem filmes bons e excelentes, mas que passam à margem, são alternativos. O circuito comercial é um grande celeiro do lixo da indústria cultural”, declara.

Voltando ao início do texto: todo crítico de arte é uma figura controversa. Pelo menos, é o que muitos dizem. E o que dizer do baiano André Setaro? Tire as suas conclusões conferindo a entrevista concedida pelo mestre ao Nicotina, Cafeína e Cinema.

Nicotina, Cafeína e Cinema - O que podemos dizer da atual crítica cinematográfica brasileira?

André Setaro - Assim como o cinema decaiu, a crítica o acompanhou. Os jornais estipulam um espaço muito limitado, pois as pessoas não gostam mais de ler. Também o império do audiovisual domina em detrimento da cultura literária. A grande crítica, com nomes como Paulo Emílio Salles Gomes, Antonio Moniz Vianna, Francisco Luiz de Almeida Salles, Ely Azeredo, Walter da Silveira, entre muitos outros, não existe mais. No momento atual, há excelentes críticos, como Inácio Araújo e (Luiz Carlos) Merten, mas confinados e restritos a pequenos espaços nos jornais que escrevem.

NCC - Para o senhor, quais os elementos que compõem um bom crítico?


AS - Respondo com a mesma resposta que dei à Ilustríssima da Folha de S. Paulo: "A rigor, a função da crítica de cinema é ajudar o espectador a percorrer o itinerário do filme com um mínimo de conhecimento da sua linguagem, de modo a permitir que se reconheça, durante o trajeto, aquilo que é importante e o que não é. Uma função, portanto, que, mesmo antes de se reportar à apreciação estética da obra considerada no seu conjunto, incide sobre a sua sucessiva "racionalização", quer dizer, a tradução em termos lógico-discursivos do sentido poético que ela exprime através dos procedimentos de significação que lhe são próprios. É necessário que o aspirante a crítico construa primeiro um repertório para depois se aventurar na análise fílmica. A crítica é a arte da paciência.

NCC - Quais as suas principais referências em termos de crítica?


AS - André Bazin, Moniz Vianna e Walter da Silveira.

NCC- Existem alguns piadistas de plantão que dizem que o crítico é um profissional frustrado que queria ser cineasta e não conseguiu. O senhor acha que essa afirmativa, mesmo sendo uma brincadeira, teria algum fundo de verdade? 


AS - Pessoalmente, acho que não. Gosto de ser espectador, mais espectador, inclusive, do que crítico. O crítico é meio arrogante, quer ser dono da verdade. Acho fazer cinema muito chato, demorado.

NCC - Em termos de produção, na sua visão, por que o cinema brasileiro carece de produções de qualidade hoje em dia? O que estaria faltando?


AS - Ao depender da captação de recursos, perdeu muito a sua independência criativa. Se houve evolução na técnica, tendo uma qualidade que pode ser comparada a dos filmes estrangeiros, não se percebe, atualmente, a emergência estética. O chamado cinema de invenção, de Ozualdo Candeias, Mojica, Sganzerla, entre outros, não tem mais espaço no panorama atual. A produção mais independente se encontra concentrada nos filmes feitos em digital por uma nova geração, como os apresentados na Mostra Aurora de Tiradentes neste ano.

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"Sem dúvida, hoje qualquer pessoa faz um filme até pelo celular. Mas o tempo vai se encarregar de mandar a maior parte para o lixo"


NCC - O senhor acha que existe alguma possibilidade estrutural de o cinema nacional deixar de ser refém de dinheiro público?

AS - O advento do digital talvez possa ser uma tábua de salvação para a expressão cinematográfica.

NCC - Na sua opinião, as novas tecnologias e as novas plataformas de produção são uma forma de democratizar ou banalizar o fazer cinematográfico? 


AS - Sem dúvida, hoje qualquer pessoa faz um filme até pelo celular. Mas o tempo vai se encarregar de mandar a maior parte para o lixo.

NCC - E o cinema baiano? A Novíssima Onda Baiana realmente existe?


AS - Não existe cinema baiano, já o disse várias vezes, mas filmes baianos. Para a existência de uma cinematografia, é necessário que haja uma produção sistemática e continuada. A Novíssima Onda é um rótulo. Apenas.

NCC - Se esse ritmo atual persistir, o cinema baiano está fadado a viver de esmolas...


AS - E cada vez mais. O mendigo da igreja de São Bento em Salvador ganha mais do que um cineasta baiano.

NCC - Se o senhor tivesse que apontar uma obra emblemática na história do cinema, qual seria?


AS - Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), de Orson Welles.

NCC - Para finalizar, como o senhor definiria o cinema, enquanto arte?


AS - A linguagem cinematográfica, a partir de David Wark Griffith, diretor de "O Nascimento de uma Nação" (1915), filme que instaurou a montagem narrativa com eficiência dramática, foi sendo elaborada e enriquecida durante seis décadas do século passado. Os realizadores inventores de fórmulas, que contribuíram na evolução da linguagem, como Orson Welles, Hitchcock, Godard e outros tantos, se esgotaram em meados da década de 1960, quando houve uma espécie de exaustão e a invenção foi substituída por estilos pessoais. O cinema é uma arte em crise, porque todos os bons filmes já foram feitos, como gostava de dizer o cineasta americano Peter Bogdanovich.
     

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