segunda-feira, 6 de junho de 2011

Kubrick, o cineasta e a pessoa

Carlos Baumgarten


Para quem conhece a carreira do cineasta Stanley Kubrick, sabe que é difícil desvincular o profissional da pessoa. Sua obsessão pela perfeição foi a grande característica de sua personalidade. E é lógico que, tamanho perfeccionismo, acabava caminhando ao lado de sua vida pessoal, sem escândalos, sem traumas, ou dramas, mas vivida para a sua arte.

E é tentando “exibir” esse Kubrick profissional e pessoal que a Cinemateca Francesa dedica uma mostra ao diretor norte-americano. A mostra está no prédio da cinemateca, em Paris, até o dia 31 de julho, e traz anotações de roteiro, elementos de filmes, fotos de família e uma série de objetos e lembranças que ajudam a desvendar o mito o Kubrick.

Uma das marcas de Kubrick foi a versatilidade. Se observarmos o seu caminhar, não identificamos repetições de gêneros: temos ficção, comédia, terror, drama, épico, guerra... Kubrick queria deixar a sua marca como um artista de várias artes, ao invés de especializar-se em uma linguagem.

Aliás, nem podemos dizer que a palavra “especialista” estava fora do vocabulário do controverso diretor. Eram anos e anos dedicados a pré e produção de um filme. Pesquisas e mais pesquisas tomavam conta de sua mesa e todo esse trabalho minucioso era transpassado para os seus filmes, esteticamente cuidados, como se fossem esculpidos dentro de uma longa jornada.

Antigos colegas de trabalho contam que, em Spartacus (1960), Kubrick queria figurantes em uma cena que teria, como fundo pessoas, crucificadas, que estariam em segundo plano, desfocados e, muitas vezes, fora de quadro. A produção arrumou uns bonecos para conter custos. Ao ver que os bonecos estavam “imóveis” ele teria perguntado: “Por que os figurantes não se mexem?”. O assistente teria respondido: “São bonecos, não pessoas”. Resultado: Kubrick exigiu que os bonecos fossem envoltos por corda para que técnicos pudessem fazê-los se mexer.

Outra exigência de Kubrick estava na fotografia. Ele mesmo veio da escola fotográfica, trabalhando, inclusive, para alguns periódicos norte-americanos. Em um de seus primeiros filmes, O Grande Golpe, de 1956, havia um plano sequência rodado através de um travelling, que deveria possuir um cuidadoso trabalho de iluminação e cenário. O experiente fotógrafo Lucien Ballard trocou as lentes da câmera para facilitar o seu trabalho. Kubrick questionou, afirmando que haveria uma mudança de perspectiva. Ballard rebateu, alegando que o resultado seria quase o mesmo e o trabalho infinitamente menor. Kubrick finalizou: “Ou você coloca as lentes que eu fale a você para colocar, ou pode sair daqui e nunca mais voltar”. O experiente Ballard nada falou. Apenas obedeceu.

Assim como Lars von Trier, atualmente, Kubrick gostava de levar os seus atores ao limite. Malcom McDowell foi, realmente, torturado na famosa cena de Laranja Mecânica (1971) em que ele está envolvido por uma camisa de força e com grampos presos aos seus olhos para que eles não fechassem. Em um lapso de agonia, acabou arranhando a córnea e ficando temporariamente cego. Kubrick perguntou ainda qual o animal mais repulsivo para o ator, aquele que ele teria real fobia. McDowell respondeu que as cobras o assustavam. Então, uma cobra passou a ser o animal de estimação da personagem.  

Shelley Duvall também viveu momentos de horror em O Iluminado, de 1980. Em vídeos de arquivo, é possível ver a irritação do cineasta com a atriz em uma cena que ela não houve a marcação e não faz o que deveria ser feito.

2001: Uma Odisseia no Espaço rompeu barreiras em 1968. Inovou nos efeitos especiais e na utilização da trilha sonora clássica, com Assim Falou Zaratustra e a Valsa de Strauss. Foram cerca de cinco anos de filmagem, em um esforço que se tornou um dos épicos espaciais mais famosos da história do cinema. O depoimento de Steven Spielberg sobre a obra é a seguinte: não se trata de uma ficção científica, um drama, uma aventura. É, praticamente, uma viagem espiritual.

Obras que nunca poderemos ver ficam apenas na nossa curiosidade. Uma delas seria a sua versão de A.I. – Inteligência Artificial, que chegou a ser esboçado por ele e por Spielberg. Mas o projeto de parceria dos dois cineastas não foi adiante, embora, logo após a sua morte, o diretor de Tubarão logo se encarregou de lançar a sua versão, em 2001.

Outro trabalho que nunca chegou a sair do papel foi um longa sobre Napoleão. Seria um épico, de custos astronômicos, que fez o estúdio recuar na produção. Outro balde de água fria para Kubrick foi o lançamento de um filme com a mesma temática sobre Napoleão, que naufragou nas bilheterias. E, para os executivos, isso era mais um sinal para não levar a ideia adiante.

Kubrick tem uma lista de filmes relativamente curta em sua carreira de cinco décadas. Foram 13 longas, de temas diversos, muitos deles controversos, que marcaram uma carreira sólida. Stanley Kubrick morreu em 1999, antes de ver a recepção fria ao seu último trabalho, De Olhos Bem Fechados, que trazia o então casal Tom Cruise e Nicole Kidman. Kubrick morreu após ver a última edição do longa, que foi levado aos cinemas da forma que o cineasta queria.   

Nenhum comentário:

Postar um comentário