quarta-feira, 22 de junho de 2011

Crítica: Meia-Noite em Paris

De volta aos velhos tempos

Carlos Baumgarten

Meia-Noite em Paris, novo filme de Woody Allen, que estreou na última sexta-feira nos cinemas brasileiros, celebra o retorno. O retorno à charmosa Paris dos anos 20 e o retorno de Woody Allen à boa forma, lembrando clássicos como A Rosa Púrpura do Cairo (1985), através de um realismo fantástico.

O filme abre em tom de deslumbramento frente à Paris. Observamos a passagem de tempo, desde o nascer do dia, passando pela chuva até a noite. Encontramos, então, Gil Pender (interpretado por Owen Wilson), um roteirista de Hollywood bem-sucedido, porém frustrado com a sua realidade, buscando o sonho de se tornar um romancista. Ele está com a noiva Inez, mulher dominadora que faz parte de uma família conservadora.

Os pais de Inez vieram à Paris para o patriarca tratar de negócios. O casal aproveitou para fazer uma visita à cidade da luz e planejar o casamento. Voltando à frustração de Gil Pender, a presença dele na capital francesa o faz desejar conviver em uma Paris chuvosa dos anos 20, quando grandes pensadores, escritores e artistas desenvolviam suas ideias para o mundo.

Em uma noite, após algumas doses de vinho, Pender resolve voltar ao hotel a pé e acaba se perdendo. Ao encostar-se a uma catedral e ouvir o bater do sino marcando a meia-noite um típico veículo dos anos 20 surge na escuridão das ruas e transporta Gil Pender para a época em que ele desejaria viver.

De repente, o roteirista e escritor do século XXI está se relacionando com grandes artistas, escritores e pensadores do século passado, como Hemingway, Fritzgerald, Pablo Picasso, Salvador Dalí, Luis Buñel, entre outros. Não é de primeira que Gil Pender entende o que está acontecendo, nem o espectador.

Woody Allen busca não fornecer nenhuma explicação lógica para o que acontece, como em A Rosa Púrpura do Cairo. A essência está em fomentar uma reflexão sobre o ciclo do pensamento social. Existe uma cultura global de se afirmar que o presente não serve e teríamos que viver no passado para reviver a “era de ouro”. Mas, nos anos 20, a Belle Époque do século XIX era considerada os anos dourados da velha Paris, enquanto para os habitantes daquele tempo era a Renascença o grande arcabouço filosófico, artístico e social que regia as grandes ideias da humanidade.

Então, Woody Allen, através do seu humor peculiar de uma pessoa que frequenta sessões de psicanálise há décadas, faz, talvez, uma auto-reflexão, transmitindo para o espectador o que é o presente e o que foi o passado. Então, em meio à luz da noite de Paris podemos ver um Allen se reencontrando com as suas origens, dessa vez fora de sua tradicional Nova Iorque.

As últimas tentativas de o cineasta filmar na Europa não foram tão bem-sucedidas quanto em Meia-Noite em Paris. Filmes como Scoop (2006), rodado em Londres, e Vicky Cristine Barcelona (2009), rodado em Barcelona, possuem o mesmo deslumbramento pelas respectivas cidades, mas se prendem e se perdem em roteiros pouco criativos. Não era o que se esperava de Woody Allen.

Como em toda obra, o cineasta escolhe uma personagem para ser o seu alter ego, quando não é interpretado por ele mesmo. Nesse caso, vemos claramente uma transposição de Woody Allen para a personagem de Owen Wilson: brilhante, mas inseguro, frustrado, em busca de novas realizações e desafios.

O filme gira em torno dessa aventura temporal de Gil Pender, fazendo um paralelo com seu difícil relacionamento com a noiva Inez, personagem, por vezes, exageradamente desagradável, mas nada que comprometa o andamento da película. Podemos dizer que Paris, assim como inspirou diversos artistas em épocas diferentes, dessa vez, inspirou Woody Allen para reviver o seu bom desempenho. Mais do que isso, talvez ele queira mostrar é que os tempos mudaram, as pessoas mudaram, ele também, e não há porque se lamentar pelo que passou e sim celebrar o que há no presente.    

Nenhum comentário:

Postar um comentário