sexta-feira, 17 de junho de 2011

Crítica: Família Braz: Dois Tempos

Um filme sobre a nova classe média brasileira

Carlos Baumgarten
Fotos: Divulgação
Seu Toninho, dona Maria, Anderson, Denise, Gisele e Eder. Eles compõem a família Braz, centro do documentário dirigido por Arthur Fontes e Dorrit Harazin. Os diretores fazem uma reflexão sobre a chamada nova classe média brasileira. Para isso, foi necessário realizar o filme em dois tempos. Portanto, eis a justificativa do título Família Braz: Dois Tempos. O documentário estreou nos cinemas no último dia 10.

Em 2000, os diretores selecionaram uma família moradora do bairro da Brasilândia, periferia de São Paulo, e indagaram seus membros sobre sonhos e perspectivas para o futuro. Nessa época, percebemos algumas frustrações e uma certa baixa autoestima por parte de alguns dos membros. O esforço e a perseverança de todos, porém, é evidente.

Seu Toninho, o pai, é bombeiro hidráulico. Anderson, o filho mais velho, trabalha em uma imobiliária. Denise é uma espécie de segurança financeira da casa. Gisele e Éder, os dois mais novos, estudam e trabalham. Dona Maria, a mãe, é apontada como o alicerce da família. Por isso, o documentário abre com ela, puxando uma panorâmica para a gigantesca cidade de São Paulo ao fundo.

“Me considero uma pessoa de classe baixa”. Assim se define Dona Maria no primeiro momento do filme. A casa de poucos cômodos, com todos os quatro filhos ainda vivendo sob o mesmo teto, vai revelando as angústias e dificuldades da família Braz. Essa espécie de retrospectiva é enquadrada em preto e branco, de forma que o espectador entenda que aquelas afirmativas estão em um passado, relativamente, próximo.


Seu Toninho, no ano 2000.

Uma década depois, o colorido da imagem retrata a prosperidade. Anderson, o filho mais velho, já ocupa um cargo mais alto na empresa. Casou-se e mudou-se para um apartamento. Denise também cresceu na empresa e começa a realizar os seus sonhos de consumo. Gisele e Éder fazem planos, mas ambos já estão com seus empregos, seguindo o caminho da independência financeira.

Enquanto isso, seu Toninho continua os seus serviços na área hidráulica, mas já com uma equipe formada e fazendo planos para a aposentadoria, coisa que, 10 anos antes, ele nem acreditava ser possível. Dona Maria continua sendo o alicerce da casa. Tem uma fisionomia mais tranquila e está mais segura do presente e do futuro.

Anderson com a esposa, Aline, em 2010.

Com essa condução, os diretores Arthur Fontes e Dorrit Harazin nos apresentam mais uma família brasileira que alcança a prosperidade. Não há nenhuma referência explícita ao momento econômico brasileiro e o surgimento da chamada nova classe média. Mas, subtende-se o que é possível conquistar em tempos de aquecimento da economia.

Dessa forma imparcial, somos levados a uma análise do modo de vida de dessa família, que podia ser qualquer outra nas diversas periferias das grandes capitais do nosso país. Pode ser que elas tivessem o mesmo “final” da família Braz. Pode ser que não. Portanto, o documentário, praticamente, acompanha o surgimento dessa classe média acompanhando os passos, os planos e os esforços dessa família paulistana. Dez anos depois, sonhos se concretizam, pensamentos mudam, planos percorrem caminhos inesperados e assim o ciclo se renova e prossegue.

Com sua “honestidade” narrativa, a câmera de Fontes e Harazin busca, simplesmente, esse acompanhamento em dois tempos, que acaba se tornando uma bela análise econômica e social do Brasil. Pelo trabalho, o filme foi premiado na última edição do festival É Tudo Verdade. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário