quarta-feira, 4 de maio de 2011

Jovem cineasta segue o verdadeiro caminho das Índias

Carlos Baumgarten
Fotos: Divulgação




Apesar da pouca idade, a cineasta Beatriz Seigner (foto), 26 anos, já tem uma trajetória cinematográfica em ascendência. Há 11 anos, ela fazia o seu primeiro curta: Uma Menina como outras Mil, participando das primeiras oficinas de Kinofórum, na favela Monte Azul, na capital paulistana. Já em 2001, participou do primeiro festival de cinema, o Internacional de Curtas-metragens de São Paulo.


Os caminhos seguidos culminaram na produção do longa Bollywood Dream: O Sonho Bollywoodiano, que estreou na última sexta-feira nos cinemas nacionais. A ideia de filmar na Índia vem de longa data.  “Desde a primeira vez que fui para a Índia, aos 18 anos de idade, já com uma câmera na mão, que tinha a vontade de fazer um filme que unisse nosso país aos deles”, revela a diretora, que é natural de São Paulo.

O filme é uma co-produção entre Brasil e Índia e, graças às novas plataformas disponíveis, o orçamento, relativamente modesto, de US$ 20 mil possibilitou a concretização do projeto de Beatriz, que começou a trabalhar no roteiro de Bollywood Dream em 2006.

Ela acredita que a liberdade que traz consigo vem da formação que recebeu na escola Waldorf Rudolf Steiner, dos 8 aos 18 anos de idade. A partir dos 14 anos, Beatriz começou a se envolver com teatro, na Companhia Paidéia, onde, nas palavras da cineasta, aprendeu a “ser cidadã engajada neste mundo”.

Aos 17 anos, Beatriz obteve uma significativa experiência. Naquela época, a cineasta foi morar na tribo indígena Xavante, no centrooeste brasileiro. Seu primeiro contato com a Índia veio aos 18 anos, quando ela embarcou para o País. “Fui até lá completamente apaixonada pela dança clássica indiana, Odissi, e pelo cinema de Satyajit Ray”, conta.

Em seguida, mudou-se para Roma, onde estudou no Centro Sperimentale di Cinematografia. “Já queria fazer direção, mas, por ser muito nova, me ofereceram o curso de atuação”, lembra Beatriz. E, finalmente, após dois anos trabalhando no roteiro e na pré-produção de Bollywood Dream, lá estavam a jovem diretora e a sua equipe, filmando na Índia.  

Nesta entrevista concedida ao Nicotina, Cafeína e Cinema, Beatriz Seigner fala sobre esse novo trabalho, dos desafios da produção, das diferenças (e semelhanças) culturais entre Brasil e Índia, além de bater um papo à respeito da atual realidade do cinema brasileiro. Entre outros pontos, a diretora defende que a arte deve ser subsidiada pelo Estado, mas que esse investimento retorne ao público e não às empresas privadas. Confira:

Nicotina, Cafeína e Cinema - O que a motivou a fazer um filme passado em Bollywood?
Beatriz Seigner - Desde a primeira vez que fui para a Índia, aos 18 anos, já com uma câmera na mão, tinha a vontade de fazer um filme que unisse nosso País aos deles. No entanto, não encontrava um recorte ideal para me acercar das questões que me intrigavam naquele país, com aquela cultura milenar. Ao voltar para o Brasil e ouvir amigos atores perguntando sobre Bollywood, percebi que este poderia ser o recorte, o olhar, que eu estava buscando. 

 NCC - Você conhece ou já ouviu histórias de pessoas que buscaram o mesmo sonho que as três principais personagens do filme: ir para Bollywood atrás de uma carreira promissora?
BS - Muitas pessoas do leste Europeu trabalham bastante com isso lá. De brasileiras, sei de cinco modelos que no momento estão participando de alguns filmes. Todas elas foram para lá depois que fizemos nosso filme. Estes dias, no debate que fizemos com a Folha (de São Paulo), outras pessoas disseram que foram para a Índia trabalhar com outras coisas, mas acabavam fazendo essas pontas em filmes para ganhar um dinheirinho extra e poder viajar mais pela Ásia. De modo geral, é muito comum os agentes de Bollywood escalarem viajantes na rua para participarem de filmes. O bairro de Cobala, em Mumbai, é bastante conhecido por isso.

NCC - Tratando-se de uma co-produção, como se deu a junção cultural entre Brasil e Índia nesse aspecto produtivo? 
BS - Os indianos ficaram com 30% da RLP do filme (Renda Líquida do Produtor), em troca de nos oferecerem infraestrutura e logística, ou seja, hospedagem, transporte, parte da equipe, parte dos equipamentos e acesso às facilidades dos estúdios. Durante toda a pré-produção, pesquisa de locacão, casting, nos demos muito bem. Na hora de filmar, no entanto, já com as atrizes brasileiras lá, percebi que nossas propostas estéticas eram muito diferentes. Eu queria improvisar e fazer jazz com as atrizes, e eles queriam que eu reproduzisse o modelo enlatado da indústria cinematográfica de lá. Daí, liguei para o produtor com o qual tinha o contrato que me dava total liberdade artística e corte final do filme, e ele trocou a equipe por outra bem menor, mas também mais ágil, disposta a filmar nas ruas, mais afinada com o frescor que queríamos no filme. Aí formamos uma família e foi uma delícia, apesar de termos que passar por muito mais escassez de produção.

NCC - Você acha que esse processo de co-produção entre países é uma forma de alavancar produções e viabilizá-las de maneira global? 
BS - Antes de tudo, vale observar que o ser humano contemporâneo é um ser deslocado, em migrações, êxodos, com influências globais, e é natural que o cinema acompanhe essas questões de uma "humanidade planetária", de condicionamentos culturais diversos. Em termos financeiros, acho que sim, que é sempre válido expandir nossos horizontes para mercados internacionais, e fazer co-produções. É uma forma de entrar também em outros mercados. A Ásia, neste momento, está fervendo em diversos aspectos, tanto criativos, quanto econômicos. O BRICS (Brasil, Russia, India, China e África do Sul) está mudando o cenário econômico global. Então, por que não nos unir também culturalmente?



"Acho que em muitos aspectos meu olhar é mais indiano do que brasileiro"

NCC -  Na sua opinião, o que separa o cinema indiano do brasileiro? E, ao mesmo tempo, o que juntaria essas duas culturas cinematográficas?
BS - O cinema indiano tem a maior parte de sua produção baseada na lógica industrial, de enlatado culturais, em diversas repetições de mesmas fórmulas narrativas e estéticas. Não todo o cinema, é claro. Estou me referindo apenas à sua grande maioria. No entanto, isso vem mudando dos anos 2000 para cá, quando a indústria se profissionalizou, de fato. Os sindicatos surgiram e diversos roteiristas de outros continentes começaram a ser contratados para trabalhar lá. Ao mesmo momento, é um cinema que conta com um parque exibidor. Só na Índia, são mais de 10 mil salas, sendo que 95% delas são ocupadas com filmes nacionais, num território que é um pouco maior do que um terço do brasileiro, enquanto a gente conta com um parque exibidor de pouco mais de 2 mil salas, sendo que, destas, apenas 10% não são associadas aos estúdios americanos. É um cinema unido à indústria fonográfica, no qual cada filme lança consigo cerca de seis músicas, tocadas em rádios e videoclipadas nas histórias dos filmes. Isso é tão importante por lá, que primeiro fazem as canções e depois o roteiro do filme que se encaixem com elas. No cinema brasileiro, a maioria dos filmes é filmada em locação, ao invés de em estúdios, prezamos muito mais o realismo nas interpretações, o som direto lapidado. 

NCC - O crítico Luiz Carlos Merten disse que você pode ter realizado o melhor filme do Ocidente sobre a Índia. Como se deu a construção do enredo? Para você, estereótipos são inevitáveis, no momento em que se tem uma visão de fora sobre aquela cultura?
BS - Acho que esse filme (Bollywood Dream) é sobre três personagens tentando se livrar dos condicionamentos culturais brasileiros, que carregam consigo onde quer que vão, mesmo num lugar tão diferente quanto a Índia. É um filme muito mais de perguntas do que de respostas. Ao mesmo tempo que trago o meu olhar, de quem estuda por mais de oito anos a cultura indiana, já morou mais de seis meses lá e já retornou outras quatro vezes,  ou seja, um olhar muito próximo ao dos indianos, tento mostrar de maneira não exótica o olhar das atrizes, que estavam passando por aquele País pela primeira vez. Acho que em muitos aspectos meu olhar é mais indiano do que brasileiro.

NCC - Falando de aspectos mais gerais, você fez um filme com um orçamento de US$ 20 mil. Pode-se dizer que os diversos recursos disponíveis, hoje, as inúmeras plataformas e ferramentas possibilitam que as novas gerações tenham mais acesso ao "fazer cinematográfico"?
 BS - Acredito que sim. Jamais poderíamos ter feito esse filme se não fosse a acessibilidade dos meios digitais.

NCC - A distribuição ainda é considerada o principal gargalo do cinema brasileiro. Na sua opinião, o que provoca essa dificuldade?
BS - A distribuição no Brasil é bem difícil, por diversos motivos. Um deles, por termos tão poucas salas, e muito menos salas diferenciadas, que não passem apenas os enlatados norte americanos. Sem dúvida, o sistema atual estrangula muito filme bom, que não consegue chegar ao seu público.

"Acredito que a arte deve ser subsidiada pelo Estado, sim, mas que esse subsidio volte ao público com ingressos gratuitos"

NCC -  No quesito captação de recursos, o que você acha que precisa mudar em termos de políticas públicas, de um lado, e de comportamento da área artístico-cultural, de outro?
BS - Acredito que esse é um problema urgentíssimo para ser tratado, pois as verbas públicas foram parar nas mãos dos diretores de marketing das empresas privadas, que buscam apenas a visibilidade egóicas de suas marcas sem se preocupar com a herança cultura do povo que está se formando. Isso é um absurdo! E ainda por cima, eles ficam com a propriedade patrimonial dos filmes, e recebem a bilheteria, e qualquer lucro que vier, sobre um investimento feito com dinheiro público. Esse retorno deveria ir para o Estado e não para as empresas privadas! Outro absurdo são os estúdios americanos utilizarem os recursos do Artigo 3º (sob impostos devidos) para fazerem filmes e serem permitidos ficar com o corte final destes. Ou seja, um empresário em Los Angeles decide o que deve ser feito num filme brasileiro, feito com recursos públicos, e o corte final não é do diretor, mas deste empresário anônimo!

NCC – Você acha, então, que a arte deve ser subsidiada pelo Estado?
BS - Acredito que a arte deve ser subsidiada pelo Estado, sim, mas que esse subsidio volte ao público com ingressos gratuitos. Ou seja, usou R$ 1 milhão de recursos públicos, então R$ 1 milhão em ingressos, de todas as sessões, devem ser distribuídas gratuitamente. Quem vai em médico público não é atendido de graça? Por que cinema público a pessoa tem que pagar a entrada? E por que, em muitos casos, o público tem que pagar R$ 300, R$ 400 reais num show financiado pelo governo? Acredito que todo este dinheiro deveria ir para um fundo, do cinema, do teatro, da música, das artes plásticas, e que fosse todo destinado a editais públicos feitos com júris rotativos de cada área, como na Argentina em que cada cineasta é júri dos editais uma vez a cada quatro anos. Assim, os grupos beneficiados seriam rotativos, a verba seria democratizada e acabaria com o nepotismo esclarecido de apenas sobrinhos-netos de empresários terem acesso a esses recursos, ficando com 10% destes, pois essa é a praxe de mercado: nenhum artista recebe isso, mas os captadores, sim. Acredito também ser urgentíssimo unirmos a arte à educação primária e secundária, exigindo do Ministério da Educação um currículo escolar que contemple a formação de música, teatro, dança, artes plásticas, fotografia, cinema, história da arte, história da arquitetura, nas escolas, e assim termos indivíduos muito mais equilibrados emocionalmente e uma sociedade muito mais saudável. Só assim poderemos falar de consumidores de cultura, livres, de fato.

5 comentários:

  1. Muito bom, Beatriz. Claro e conciso, inteligente, e além do mais você conseguiu fazer o filme que queria e mostrá-lo para o público. Parabens !

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  2. Puxa!!!! Respostas maduras para uma jovem. Não é à toa que conseguiu fazer um sonho tornar-se realidade. Parabéns!!!!

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  3. Beatriz. Ao ler esta reportagem, vejo o quanto a qualidade do ensino ajuda o jovem a tornar-se mais criativo, forte e crítico, pois o mundo precisa de jovens que possam ter um olhar diferente daquilo que é normalmente mostrado.Sucesso e muita Luz!

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  4. Parabéns, Beatriz. Sucesso!!!!!
    Como mãe Waldorf que pode assistir a apresentação de seu trabalho anual do 12º ano, só posso sentir orgulho e alegria.
    Bjs
    Marta

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  5. Uau Beatriz!!! É um orgulho termos uma jovem íntegra (no sentido mais amplo da palavra), de garra, buscando e realizando seu sonho! UM EXEMPLO!!!
    Será um prazer especial assistir seu filme junto com minha filha que está no 12º ano.
    SUCESSO!!!! E PARABÉNS!!!!!
    Bjs,
    Márcia (mãe Waldorf)

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