segunda-feira, 23 de maio de 2011

Cannes: inesquecível

Carlos Baumgarten

Junto com o Oscar, o Globo de Ouro e o Festival de Veneza, o Festival de Cannes é, talvez, um dos eventos mais relevantes do cinema mundial. Sua magnitude e tradição, em 64 anos de existência, chamam a atenção de cinéfilos dos quatro cantos do globo e ajudam a lançar futuros sucessos e enigmas.

Porém, o brilho do festival, nesta edição realizada entre 11 e 22 de maio, não faz com que todo o ano este evento seja inesquecível. Em 2011, entretanto, podemos dizer: foi inesquecível. Acredito eu, inesquecível por dois momentos específicos: o retorno do retraído Terrence Mallick e pelo banimento de Lars von Trier, especialista em polêmicas.

Vamos por partes.

Quando ouvimos dizerem por ai que Terrence Mallick tem quarenta anos de carreira, imaginamos uma longínqua filmografia existente na trajetória desse diretor, correto? Só que, para quem não conhece, é preciso aprender: Terrence Mallick é e, pelo visto, sempre será um enigma.

São quarenta anos de carreira e apenas seis filmes no currículo, sendo um deles um curta-metragem. Assim se resume a obra física de Mallick. Mas a metafísica é o principal em suas obras. E sua biografia ajuda a entender isso.

Mallick estudou filosofia em Havard e se formou com as mais altas honras. Isso quer dizer que cada um de seus filmes é uma reflexão complexa sobre o ser e o nada, o moral e o imoral, a ética e aética.

O Festival de Cannes deste ano marcou o retorno desse enigmático diretor, cujos filmes são considerados por muitos críticos obras-primas da cinematografia mundial. A Árvore da Vida, que está previsto para estrear no Brasil em julho, traz no elenco Brad Pitt e Sean Penn e apresenta, em sua trama, a jornada de uma personagem que passa pela inocência da infância e as desilusões da fase adulta.

O filme de Mallick foi premiado, quase que por unanimidade do júri, com a Palma de Ouro em Cannes. Apesar dos holofotes, o cineasta norte-americano é conhecido pela sua timidez. Ele não costuma aparecer em premiações. Em 1998, com o seu filme Além da Linha Vermelha, Mallick foi indicado ao Oscar de melhor diretor e nem sequer apareceu para entrevistas na época, muito menos na cerimônia. E não foi diferente em Cannes. Ele preferiu o “anonimato expositor” do que os flashes dos fotógrafos.

Se por um lado, Terrence Mallick não gosta de aparecer, por outro, Lars von Trier adora chamar uma atençãozinha para o seu lado, seja por seu comportamento, seja por seus filmes. O polêmico diretor, com mais dois cineastas conterrâneos seus, foi um dos autores do manisfesto Dogma 95, publicado no ano de 1995, na Dinamarca.

A proposta era fazer um cinema mais realista e menos comercial, com o mínimo de recursos possíveis. De lá, saíram obras-primas como Festa em Família, de 1998, e Dançando no Escuro, de 2000, sendo que este último título é do próprio Lars von Trier. E é o próprio Lars que foi responsável por uma das obras mais ousadas do cinema, Dogville (2003), gravado em um galpão, sem cenário, com o foco apenas nas intensas interpretações dos atores.

Há dois anos, ele lançou o violento Anticristo, com cenas de sexo e mutilação explícitas. Segundo o diretor, é a sua visão sobre Deus e uma ode à depressão e ao desespero. Agora, com Melancholia, von Trier causou mais polêmica por suas colocações do que pelo filme propriamente dito.

Além de expor a atriz Kirsten Dunst em uma coletiva, afirmando que ela sabia bem o que era “depressão”, o cineasta afirmou ter uma certa empatia por Hitler. Nas palavras dele: “Eu entendo Hitler”. A atitude fez com que a direção do Festival de Cannes o expulsasse do evento. Lars von Trier é, agora, “peronsa non grata” em Cannes e, ele mesmo, em entrevista à Folha revelou: “Já ouvi dizer que quando você é banido dura para sempre”.

Apesar da expulsão, o filme Melancholia não saiu da competição oficial e rendeu a atriz Kirsten Dunst o prêmio de melhor atriz. Sim, a Mary Jane do Homem Aranha parece ter desabrochado enquanto uma atriz madura e talentosa. Vale ressaltar que von Trier leva os seus atores ao limite, sendo as mulheres as principais vítimas de crises nervosas.

Verdade seja dita, esses dois fatos renderam e foram, sem dúvida, os principais atrativos de Cannes neste ano. Polêmicas, retornos, saias justas... se tudo isso não retirar o brilho dos trabalhos cinematográficos, o Festival de Cannes será sempre inesquecível.  

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