terça-feira, 12 de abril de 2011

É Tudo Verdade


“O Fim e o Princípio”



Carlos Baumgarten


Referência em documentário no Brasil, não há como deixar de mencionar o nome de Eduardo Coutinho ao falarmos do gênero. Desde a juventude, Coutinho sempre teve uma posição político-social bastante definida e, em seus filmes, podemos ver uma ampla sensibilidade ao SER humano. Começou uma empreitada na década de 60 com o cinema de ficção, que acabou sendo interrompido pela intervenção do regime militar.

Apesar de ter boa parte dos negativos perdidos, os que sobreviveram serviram de inspiração para dar continuidade ao projeto, cerca de 20 anos depois. É aí que começa a história de Cabra Marcado Para Morrer, de 1984, um dos documentários mais importantes da cinematografia brasileira. Para entendê-lo, é preciso voltar ao início dos trabalhos, nos anos 60.

Coutinho e sua equipe queriam filmar uma cinebiografia de João Pedro Teixeira, um líder camponês da Paraíba, assassinado em 1962. Com a interrupção, em 64, o projeto ficou engavetado, mas não foi esquecido. As filmagens foram retomadas 17 anos depois, mas dessa vez em formato documental. A equipe colheu depoimento dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens, inclusive da viúva de João Pedro, Elizabeth.

Adepto do movimento cinema verdade, Coutinho já demonstrava aspectos dessa natureza naquele trabalho, quando, por exemplo, focava na reação expressiva dos camponeses ao se verem nas primeiras filmagens, quase duas décadas antes. Daí em diante, Coutinho não parou de ascender no gênero documental.

Entre tantos trabalhos, podemos destacar filmes como O Fio da Memória (1991), Babilônia (2000), Edifício Master (2002), Peões (2004), e O Fim e o Princípio (2005). O lema do cinema verdade é construir a realidade através da lente, ou seja, sem intervenções externas, realizando uma filmagem crua dos fatos, dentro de um recorte específico.

Em outras palavras, podemos dizer que Coutinho desenvolve um projeto, junta a sua equipe, liga a câmera e deixa as coisas acontecerem. Num bate-papo usual, descobrimos histórias de vida marcantes, tristes, vencedoras. Nesses depoimentos, nos envolvemos por uma atmosfera humanizada que não tem tamanho.

Um bom exemplo desse processo de trabalho de Coutinho está no filme O Fim e o Princípio. Na narração inicial do filme, ouvimos uma explicação de qual será o caminho a ser seguido pela produção. Eles estão em busca de uma comunidade do sertão nordestino para ouvirem diferentes histórias de vida. Caso eles não encontrassem uma comunidade específica, o documentário seria baseado, apenas, nesse caminho percorrido na esperança de obter uma boa história.

Sendo Eduardo Coutinho essa grande referência do gênero para nós brasileiros, não podíamos deixar de apresentar a finalização do Festival É Tudo Verdade, que terminou neste último dia 10, sem citar esse grande gênio do cinema documental. Os grandes vencedores das mostras competitivas foram anunciados neste mesmo dia 10 e você pode conferir a lista abaixo:

Competição internacional:

Longa e média-metragem

Melhor documentário
Você Não Gosta da Verdade: 4 Dias em Guantánamo, de Luc Côté e Patrício Henriquez

Menção honrosa
Cinema Komunisto, de Mila Turajlic

Curta-metragem

Melhor documentário
Fora de Alcance, de Jakub Stozek

Menção honrosa
Viagem a Cabo Verde, de José Miguel Ribeiro

Competição brasileira:

Longa e média-metragem

Melhor documentário
 A Poeira e o Vento, de Marcos Pimentel

Menção honrosa
Meia Hora com Darcy, de Roberto Berliner

Prêmio Canal Brasil
São Silvestre, de Lina Chamie

Prêmio ABD São Paulo de melhor curta-metragem brasileiro
Hoje Tem Alegria, de Fábio Meira 

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