terça-feira, 5 de abril de 2011

Crítica: VIPs

A malandragem do anti-herói


Carlos Baumgarten

Quando se compara VIPs, do diretor brasileiro Toniko Melo, com Prenda-me Se For Capaz (2002), de Steven Spielberg, encontramos muitas semelhanças. Ambos contam histórias de golpistas (anti-heróis, na verdade), que, na cara de pau, conseguiram realizar grandes feitos em benefícios próprios. Ambas as produções mostram-se simpáticas aos seus protagonistas. E os dois filmes têm interpretações imprecáveis de seus atores principais.

Entretanto, pode-se dizer que o filme de Toniko Melo, em cartaz há uma semana em circuito comercial no Brasil, tem um ponto positivo a mais do que a produção de Spielberg. Ele buscou explorar mais o lado psicológico da situação. Então, acompanhamos a história de Marcelo, um jovem apaixonado por aviação, que morre de medo de se tornar um “zé ninguém”.

Essa preocupação faz com que Marcelo vire piloto de avião de contrabandistas paraguaios, momento em que sua crise de identidade começa a se evidenciar. A esperteza do protagonista desenvolve-se ao ponto que ele finge ser o filho do dono da empresa Gol Linhas Aéreas. Um detalhe importante: apesar dos acréscimos dramáticos, essenciais à narrativa, estamos falando de uma história real.

O roteiro elaborado por Thiago Dottori e Bráulio Mantovani tem como plot, justamente, essa atuação de Marcelo como um dos herdeiros de uma das maiores empresas de aviação do Brasil. Foi a partir daí que a polícia descobriu o seu esquema. Marcelo concedeu uma entrevista a Amaury Jr., que foi ao ar para todo o Brasil, momento em que a farsa foi descoberta. Esse fato é reproduzido no filme.

Toniko Melo segue uma linha de humor, diante de uma situação que chega a ser absurda, mas não é isolada, como já podemos observar com as comparações junto à Prenda-me Se For Capaz. Wagner Moura, que interpreta a personagem principal, afirmou em diversas entrevistas que Marcelo era um verdadeiro ator. E a construção dessa linha é evidenciada em todo o filme, desde suas imitações de Renato Russo até o seu complexo de inferioridade, que o faz desejar lutar para ser “alguém” (leia-se: ter status quo).

A narrativa não-cronológica busca construir essa linha psicológica da personagem principal. Em alguns momentos ficamos em dúvidas sobre o que seria real e imaginário. Sob o ponto de vista de Marcelo, ele não estaria fazendo nada de mais, apenas tentando se dar bem. Nesse aspecto, Wagner Moura rouba a cena. O filme é ele e, talvez, não teria o mesmo resultado se outro ator fosse escalado para o papel.

No fim das contas, VIPs é uma produção bem trabalhada, com direção segura, roteiro amarrado e interpretações convincentes. Os seus 98 minutos de duração são bem dosados, dentro da proposta de se fixar em um fato específico. Os roteiristas acertaram em detalhar o fato mais relevante dessa louca trajetória de Marcelo.

Mostra como a “malandragem” do brasileiro, muitas vezes, chega ao absurdo. Nada melhor do que relatar isso de forma bem humorada.  

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