quarta-feira, 27 de abril de 2011

Crítica: Rio

Estereótipos da inocência

Carlos Baumgarten 

A campanha efervescente de marketing por trás da animação Rio, em cartaz há duas semanas nos cinemas nacionais, é digna de uma grande produção hollywoodiana. Não é a toa que o filme vem liderando as bilheterias, tanto no Brasil, quanto nos Estados Unidos. Em nosso País, ainda há um toque especial : a auto-referência e a homenagem à cidade-maravilhosa são atributos que atraem não só as crianças, mas também os adultos.

A história é a seguinte: uma arara-azul domesticada nos Estados Unidos tem que ir ao Brasil para se encontrar com uma fêmea de sua espécie. Eles são as últimas e, caso não reproduzam, a espécie entrará em extinção. Um fundo ecológico, assunto que está na pauta contemporânea, em um filme que se passa no Brasil não poderia ser mais apropriado.

Os elogios a Carlos Saldanha, diretor do filme, brasileiro, carioca e um dos responsáveis pela trilogia A Era do Gelo, foram inúmeros, por parte de mídia e do público que aprovou o trabalho.  Mas Rio não escapa da visão estereotipada do americano. Mesmo tendo um diretor brasileiro, os roteiristas de Rio são americanos (Saldanha assina apenas o argumento).

Portanto, o público vê um Rio de Janeiro arquitetonicamente maravilhoso e, vale ressaltar, não se esconde o contraste entre o luxo das praias e do calçadão e as favelas esquecidas pela gestão pública. Porém, vemos os típicos cariocas malandros. Amáveis, mas malandros. Os bichinhos que os representam (tucanos, araras, periquitos e afins) mostram ser fieis amigos, pais presentes, porém não dispensam uma boa festa, um bom samba e uma romântica bossa nova.

E a arara-azul protagonista se enxerga como um peixe fora d água nesse ambiente, ainda mais se considerarmos que ela chega ao Rio bem na semana do Carnaval. Outra questão: os traços dos contrabandistas de animais possuem forte ligação com os afro-descendentes, enquanto o suposto “mocinho” da história está mais familiar aos americanos e as suas peles brancas, em sua maioria.

É óbvio: apesar das campanhas, do lançamento do filme em comunidades do Rio e o fato de termos um diretor brasileiro não são suficientes para negar que a animação é um produto americano, que pretende ganha o mundo, mas quer fazer bonito em casa, ou seja, nos Estados Unidos.  Logo, não se pode fugir dos estereótipos.

Não há criticas ao suposto jeito de ser do brasileiro. Vemos muito samba (em uma cena, por exemplo, que uma família, composta por pai, mãe e filha, começam a tocar um pandeiro e a sambar) e o desenrolar de uma aventura divertida. E mais: apesar de todos esses estereótipos constatados, sabemos que o alvo final são as crianças. Elas não estão nem aí para essas baboseiras. Olhando por esse lado, temos uma animação completa que cumpre o seu objetivo junto ao público-alvo.

Mas, por favor, não vamos nos cegar pelos “confetes” midiáticos ou pela “inocência” do brasileiro. Os gringos ainda têm muito o que aprender sobre o Brasil.  

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