quarta-feira, 20 de abril de 2011

Cinema para todos, contra o fim do cinema

Carlos Baumgarten


Que os estúdios precisam se adaptar aos novos hábitos da população mundial, todo mundo já sabe. Mas partir para o radicalismo é demais. Veja só: a empresa DirecTV deve começar, segundo a Folha On Line, a oferecer um serviço de cinema premium a partir desta quinta-feira. Os espectadores que estiverem a fim poderão pagar US$ 29,99 para assistir uma espécie de pré-estreia caseira do filme Esposa de Mentirinha, que ainda está em cartaz nos cinemas.

Os lançamentos em DVDs ocorrem, geralmente, entre dois e quatro meses depois das estreias nas telonas, a depender de uma série de fatores, sendo o mais relevante deles o resultado nas bilheterias. Superficialmente, vemos uma arma eficiente contra a pirataria, mas, honestamente, me parece uma ameaça ao cinema tradicional. Já pensou se a moda pega? Pensando nisso, diretores como James Cameron, Peter Jackson, Robert Zemeckis, entre outros, assinaram uma carta, de autoria da Associação Nacional de Proprietários de Salas de Cinema dos Estados Unidos, contra a proposta.

É verdade que a internet mudou os hábitos do cidadão em todo o mundo. Ir ao cinema é, de fato, caro para uma grande parcela da população de países como o Brasil, por exemplo. Muitos não têm acesso a salas, cujas sessões têm ingressos que variam entre R$10 e R$20. A opção em acompanhar os grandes lançamentos surge, então, com a pirataria: um indivíduo vai ao cinema com o intuito de filmar o que se passa na tela e reproduzir uma cópia ilegal. Outros, como aconteceu em 2007 com Tropa de Elite, têm acesso a versões não finalizadas e jogam nas mãos do público.

A indústria fonográfica já sofre desse mal há anos e está se adaptando aos novos tempos. A banda Radiohead, por exemplo, disponibilizou download gratuito de duas faixas de seu novo disco, mas para todos aqueles que compraram a obra. Ou seja, não se parou de vender disco pela disponibilidade nas nuvens e pela mobilidade de dispositivos como iPod, MP5 e afins. Não se parou de fazer show, que é o grande espetáculo, o grande chamariz de uma banda. As vendas podem ter diminuído, mas esses elementos não foram extintos. E não deve ser diferente com o cinema.

O combate à pirataria deve ser algo bem estudado e feito de maneira cuidadosa. Não adianta tomar decisões precipitadas, nem criticar as novas plataformas de acesso. Mas se você cria um serviço que vai permitir que o indivíduo assista a produções que ainda estão em cartaz no conforto de sua casa, o que seria das salas de cinema, lotadas, justamente, para aqueles que têm cacife para bancar os US$ 29,99 cobrado pela DirecTV?

A realidade do Brasil é a seguinte: 55% da população urbana do nosso País assistem a filmes piratas, segundo levantamento da Associação Cinematográfica dos Estados Unidos. Sabemos que a maior parcela da população não tem grana para arcar uma sessão de cinema regularmente. Às vezes, não tem grana para bancar nunca. Essas pessoas são o grande-alvo da pirataria. Mas não são os únicos que mantêm esse mercado (vejam os engravatados e as dondocas parando nos camelôs para comprar os últimos lançamentos no cinema).

Pela população carente de cinema, deve interceder o incentivo do poder público para promover espaços em que as pessoas possam ter acesso a cinema mais barato. O combate à pirataria vem com educação e incentivo. Essas são as palavras-chave. Partindo para uma realidade muito diferente da nossa, podemos imaginar que boa parte da população nos Estados Unidos tem acesso ao cinema. Mas, uma parcela muito pequena deve ser apaixonada pelas tradições da sétima arte.

Ou seja: muitos vão ao cinema ver um filme pela curiosidade do lançamento. Mas, se eles recebem essa opção de assistir em casa, é possível que a tela grande não os seduza para se deslocarem até o complexo mais próximo e se aconchegar em uma sala. É um paradoxo. Aliás, é, sim, uma ameaça às salas de cinema, e a Associação brada com razão.

Qual será a razão de ser de um cinema? Qual será a razão de ser de um cineasta? Televisão e cinema possuem linguagens bem diferentes. E a impressão é que, se essa moda pega, os filmes serão todos direcionadas para a pequena caixa. Coloque um home theater e uma TV Led de 55 polegadas e você tem um protótipo de cinema. Esquece das salas.

Critiquei o radicalismo, mas posso estar sendo radical também, tudo em favor do cinema. Não há como comparar a emoção de você conviver com diferentes reações, de pessoas que você só vai ver, provavelmente, uma vez na vida, naquela sessão, daquele filme projetado na grande tela em sua frente, com a experiência de assistir um DVD na TV de sua casa, por mais polegadas que ela tenha.

Claro, tem gente que prefere. Nada contra a opção, mas se contente em esperar o lançamento em DVD (e, óbvio, todos esperam sem reclamar) Entretanto, sabemos que uma sala de cinema vive de faturamento. É um negócio como qualquer outro. E a existência do negócio é diretamente proporcional ao faturamento. Quando se escafeder as verdinhas, o negócio some junto.

O cinema está em fase de maturação para conviver com essa nova realidade. É preciso aceitar os novos tempos, as novas tecnologias, as novas plataformas, e se adaptar a esses elementos, e não absorvê-los por inteiro, quer dizer, mudar o “fazer cinema” ou se contentar com a ideia de que as pessoas só vão assistir filmes em casa.

A pirataria vai continuar existindo. Pode ser que em menor escala, um dia, mas é muito difícil que esse hábito mude. Seres humanos costumam ser oportunistas. Mas diminuir esse ritmo de consumo ilegal é possível e, como já reforcei, o combate à pirataria vem com educação e incentivo. A sétima arte deve estar mais acessível a todos. Não pode ser uma arte de elite. 

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