terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Som e cinema

Carlos Baumgarten


Quem não se lembra. Ao apagar das luzes em um filme de 007, começamos a ouvir aquele famoso arranjo musical, que se tornou a maior marca do agente secreto britânico, acompanhando gerações de fãs de James Bond. Já são cinco décadas, cinco atores diferentes, mas o arranjo permanece, como se fosse a fiel representação sonora da famosa personagem.

O autor dessa obra nos deixou no último domingo, dia 30, disseminando o silêncio, um vazio musical na história do cinema contemporâneo. John Barry é um daqueles compositores como Bernard Hermann, Ennio Moriconne ou John Williams, que traduz em notas musicais os sentimentos mais profundos de uma obra audiovisual.

Não é a toa que música e cinema caminham no mesmo compasso. Na verdade, som e cinema, pois às vezes o silêncio ou um simples ruído podem compor a atmosfera de uma cena de tal maneira que ficamos hipnotizados com a ausência de música. Dosar a utilização de trilha sonora, seja musical, seja um simples efeito, é fundamental para o resultado final do filme.

Hitchcock e sua filmografia são um belo exemplo. Enquanto em Psicose (1960), a trilha musical de Bernard Hermann deu o ritmo ao filme, a falta de música em Os Pássaros (1963) foi um toque de mestre para a atmosfera da obra. Psicose quebrou uma série de paradigmas em sua época. No que concerne à ideia da música, temos, por exemplo, a não utilização de percussão, instrumento que era composição garantida em filmes de suspense da época.

Já em Os Pássaros, Hitchcock optou por utilizar apenas os efeitos sonoros do bater de asas, efeito esse que contou com a preciosa ajuda de seu principal compositor, o mesmo Bernard Hermann. Para quem não viu, pode até parecer uma ideia fora do comum, que poderia não dar tão certo. Mas o resultado final é espetacular, ou, na linguagem do gênero, perturbador.

Cineastas como Scorsese e Tarantino sempre tiveram as suas influências musicais pessoais expostas em seus filmes. Scorsese, um novaiorquino apaixonado por suas origens, consegue contar através de rocks dos anos 60 e 70 um pouco de suas impressões daquelas épocas. Já Tarantino, mais diversificado em termos de música, embala sua câmera de acordo com a trilha.

Por fim, Stanley Kubrick, que com o seu 2001: Uma Odisseia no Espaço (1969), é considerado um divisor de águas no sentido de utilização de som e música em filmes. Mesmo com as obras-primas de Bernard Hermann para os filmes de Hitchcock, as trilhas sonoras ainda eram vistas como um complemento ao trabalho dos atores e diretores.

Mas, com Kubrick, a música tornou-se uma personagem a parte do filme, e essa influência é refletida em cineastas contemporâneos, como os já citados Scorsese e Tarantino. A ideia de alvorada, com Assim Falou Zaratustra na abertura de 2001..., até o visual de rotação com a Valsa de Straus, no mesmo 2001..., são obras que ficam marcadas em nossas memórias.

Não é preciso ver as cenas, basta apenas ouvi-las. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário