sábado, 19 de fevereiro de 2011

“Poesia de um gênio precoce”: Limite, de 1930, restaurado pela WCF

Carlos Baumgarten

Foto: Chrisitine Ordioni
O primeiro filme do Brasil restaurado pela WCF foi Limite, realizado por Mário Peixoto (1902-1992), em 1930. De acordo com Walter Salles (foto), trata-se de um filme essencial para a cinematografia brasileira. “Um filme poético e não narrativo realizado por um gênio precoce, Mário Peixoto, que o idealizou e filmou aos 21 anos de idade, contando com colaboradores brilhantes como o fotógrafo Edgar Brasil”, relata o cineasta.

Limite foca na história de um homem e duas mulheres, confinados em um barco, em meio à imensidão do oceano, onde começam a relembrar as suas trajetórias até chegarem onde estão.

Salles explica que Limite fecha um dos ciclos mais fecundos da história do cinema, o do cinema mudo. “Ao mesmo tempo, é um filme feito com total liberdade, por um grupo pequeno de colaboradores, que anuncia uma forma diferente, de se realizar cinema”, diz. Frente ao processo de restauração, o cineasta revela que a memória de Limite poderia ter sido totalmente esquecida, se não fosse o trabalho Saulo Pereira de Mello. “Ele foi responsável pelo primeiro processo de restauro, e supervisor da restauração conduzida pela WCF, com a inestimável colaboração de Patricia de Filippi e da Cinemateca Brasileira”, conclui.

Quanto à memória cinematográfica do Brasil, Walter Salles afirma que o País foi um dos primeiros a entender a importância vital que o cinema teria para o século XX. “Basta dizer que, em 1909, mais de 70 filmes foram realizados no país,  entre documentários, filmes de longa e media-metragem. É um número surpreendente, tendo-se em conta que os irmãos Lumière criaram o cinematógrafo poucos anos antes, em 1895”, aponta.

Por outro lado, na opinião de Salles, apesar da cinematografia rica e com artistas renomados e importantes para essa história, é preciso que os mestres continuem a filmar e que novos talentos encontrem o seu espaço, propondo outras formas de se realizar imagens. “Infelizmente, isto nem sempre acontece no nosso País”, lamenta.

E o trabalho de resgate e restauração na memória cinematográfica não para por aí. Walter Salles revela que, há alguns meses, após uma conversa com a Cinemateca Brasileira, foi sugerida a restauração de um filme de Luis Sérgio Person, cujo título ainda não foi revelado.  “Scorsese sabe que preservar a memória cinematografia equivale a preservar a memória e a individualidade dos povos e culturas retratados naquelas imagens”, pontua o cineasta.

Entretanto, o trabalho de restauração não é simples e custa dinheiro. Kent Jones afirma que as principais dificuldades encontradas pela WCF são duas: tempo e dinheiro. “Se dependesse de nós, restauraríamos 50 filmes por ano. Mas isso custa dinheiro. Estamos trabalhando para atingir essa meta”, diz. Ele destaca ainda o apoio da Cineteca de Bologna, nas pessoas de Gian Luca Farinelli e Cecilia Cenciarelli, além do suporte do laboratório L´Immagine Ritrovata, ambos na Itália. “Eles são os melhores colaboradores que nós poderíamos ter. Sem eles, não existiria a WCF”, revela.

Martin Scorsese ocupa o cargo de presidente da WCF e aponta, em seu texto de apresentação do site, que a fundação existe para ajudar a fortalecer e apoiar o trabalho de preservação dos tesouros cinematográficos dos países em desenvolvimento, fornecendo recursos para aqueles que não têm o suporte necessário para executar o processo.

Conheça mais detalhes sobre a WCF, veja a lista de filmes restaurados, os projetos futuros e, se for o caso, até como colaborar nos projetos de restauração.   

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