segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Oscar que não iria para o Brasil

Carlos Baumgarten



A imprensa pregou nos quatro cantos do País que Lixo Extraordinário era o representante do Brasil no Oscar. Até a noite de ontem, durante a premiação, muitos torciam como se fôssemos conquistar a nossa primeira estatueta. Em primeiro lugar, é preciso fazer uma observação: Oscar não é parâmetro de qualidade. Qualidade que, diga-se de passagem, é tão subjetiva quanto os gostos pessoais de cada um.

Então, é preciso entender o que é o Oscar: é uma premiação de Hollywood para Hollywood. Os jurados são de Hollywood e aqueles trabalhos de fora têm que fazer o gosto dos membros daquela Academia. Então, o alvoroço que se faz por um Oscar ao Brasil é uma atitude demagógica, na falta de outro adjetivo.

É claro que ser premiado é sempre positivo. Traz visibilidade ao trabalho, dá oportunidade ao desenvolvimento do cinema. No caso de Lixo Extraordinário, a indicação colocou em evidência o trabalho dos catadores de lixo de Jardim Gramacho, aterro sanitário localizado na cidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. O lixo que é transformado em arte, sob o olhar do artista Vik Muniz, trouxe uma nova perspectiva de vida para aqueles trabalhadores.

Mas, voltando ao tema central, Lixo Extraordinário concorria ao Oscar de melhor documentário. É uma co-produção entre Brasil e Reino Unido, dirigido pela britânica Lucy Walker e co-dirigido pelos brasileiros João Jardim e Karen Harley. O que há de se esperar? Que se divida a premiação em duas? Ou só por que tivemos parte de recursos brasileiros e o filme rodado no Brasil deveríamos pleitear pelo nosso nome em Hollywood?

Não se pode dizer que é uma produção 100% brasileira. Sem tirar os méritos dos nossos conterrâneos, mas há de se esperar que haja um acordo na assinatura da produção. Por exemplo: Lope é uma co-produção entre Brasil e Espanha, dirigido pelo brasileiro Andrucha Waddington. Parte das pessoas que trabalharam no longa eram brasileiros, mas a produção e a maior parte dos recursos vieram da Espanha. Não é a toa que Lope estava entre os finalistas para ser o representante espanhol no Oscar.

As locações, os diretores, os atores, roteiristas ou técnicos podem ser de qualquer parte do mundo. O que vai contar na hora da inscrição nas premiações é a origem da produção: quem produziu, quem arcou com os recursos? Como foi dito, se há mais de um País envolvido, é preciso chegar a um acordo, obviamente, que seja justo para ambas as partes. O Brasil não leva o prêmio, mas assina a co-produção, por cuidar de parte dos recursos. Não é justo?

Portanto, é preciso cessar com esse discurso cheio de confetes por parte da mídia de sempre fazer um estardalhaço quando o Brasil está de evidência de alguma forma. Na época do lançamento de Toy Story 3, por exemplo, era o período pré-Copa do Mundo e, com o sempre, o clima de “já ganhou” tomava conta dos noticiários. Em uma das cenas da animação, o garoto Andy aparece com uma camisa amarela de gola verde. Foi o suficiente para os jornais insistirem que ele estava vestindo a camisa da seleção brasileira...

Seria ótimo se Lixo Extraordinário ganhasse, obviamente. Seria um reconhecimento para aqueles trabalhadores e mais um passo no caminho por um futuro melhor e mais digno. Mas sua qualidade está comprovada, independente de Oscar ou de qualquer outro prêmio. Pregar que esse Oscar é do Brasil (ou brigar para que ele viesse parar em nossas mãos) é uma causa enfadonha, que beira o ridículo ou ao apelo jornalístico pela cultura do circo, pão e alienação. Seria mais um motivo para antecipar o Carnaval e esquecermos dos nossos reais problemas. 

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