sábado, 19 de fevereiro de 2011

Memória viva da cinematografia mundial

Carlos Baumgarten


O que faz de Martin Scorsese um grande cineasta não é apenas a sua técnica apurada ou a sua sensibilidade para transmitir sentimentos contemporâneos através da imagem em movimento. Um dos seus grandes valores está na paixão declarada à sétima arte. Quem assistiu ao documentário de mais de 3h intitulado Uma Viagem com Martin Scorsese pelo Cinema Americano (1995) pode comprovar essa paixão.

Não foi a toa que, há cerca de 20 anos, Scorsese idealizou e concretizou a Film Foundation, voltada para preservar a memória do cinema americano, através do suporte ao processo de restauração. A iniciativa, que conta com a participação de grandes nomes do cinema dos Estados Unidos, como Steven Spielberg e Francis Ford Coppola, já conseguiu recuperar mais de 500 películas deterioradas pelo tempo.

Em 2007, durante a comemoração dos 60 anos do Festival de Cannes, Scorsese anunciou a criação da World Cinema Foundation (WCF), uma espécie de extensão da Film Foundation, mas, dessa vez, voltada para a cinematografia mundial. No texto de apresentação da WCF, o idealizador confirma: “A World Cinema Foundation é uma expansão natural do meu amor pelos filmes”, declarou o cineasta no site da fundação www.worldcinemafoundation.net.    

O diretor executivo da WCF, Kent Jones, explica que o objetivo da fundação é restaurar e preservar filmes ao redor do mundo, oferecendo o suporte necessário para esse processo, com ênfase nos países em desenvolvimento.  Essa era uma preocupação de Scorsese desde o final dos anos 80, quando ele levantou a necessidade de se criar um estoque de cores para película mais estável.

Foi no início dos anos 90 que Scorsese confirmou, mais uma vez, o seu apreço pela arte do cineasta Glauber Rocha. Os dois já haviam se encontrado em algumas ocasiões nos Estados Unidos e uma última vez no Festival de Veneza, em 1980. O diretor norte-americano, em 1991, adquiriu os direitos para restaurar os filmes da trilogia Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), que fazem parte, inclusive, do seu acervo pessoal.

A memória quase perdida de Glauber Rocha ganha o seu valor nas mãos de Scorsese e ganha mais tempo de vida para as gerações futuras. Jones revela que o diretor possui até uma imagem da personagem Antônio das Mortes, explorado por Glauber nos filmes Deus e o Diabo... e O Dragão da Maldade... Dizem também que este último título é o preferido de Scorsese dentro do acervo glauberiano.  

Transmitindo essa paixão para o seu trabalho na WCF, o cineasta conta com a participação de diversos diretores espalhados pelo globo no processo de preservação da memória cinematográfica mundial. No caso do Brasil, Walter Salles é o responsável, em conjunto com outros cineastas, por sugerir filmes que sejam representativos e que precisem ser restaurados. O trabalho de Salles expande-se ainda pela América Latina, sempre contando com opiniões e indicações de outros cineastas.   

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