sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Crítica: Cisne Negro

O outro lado dos Sapatinhos Vermelhos

Carlos Baumgarten

O árduo mundo do balé foi tema de um clássico dirigido por Michael Powell e Emerich Pressburger (que formavam a famosa dupla “os arqueiros”), em 1948. Sapatinhos Vermelhos conta a história e de uma jovem e talentosa bailarina, que após o sucesso do espetáculo Red Shoes (título do longa) acredita que terá o mundo aos seus pés. As coisas mudam quando ela se envolve em um triângulo amoroso com um compositor e o seu empresário.

Seis décadas se passaram e Cisne Negro retoma a temática desse mundo do balé profissional, que, para quem apenas assiste, parece ser um belo “mar de rosas”. Natalie Portman interpreta Nina Sayers, uma jovem bailarina, determinada, mas dominada por uma mãe superprotetora. A luta para conseguir o papel principal do espetáculo O Lago dos Cisnes será uma jornada de autoconhecimento para a dançarina.

Ela passa por provações da sua forma de pensar e agir e será cobrada para atingir o seu máximo em perfeição, através da “imperfeição”. Natalie Portman, favorita a conquistar o Oscar de melhor atriz, confirma o seu talento, apresentando uma grande performance como uma bailarina frágil, prestes a ter um colapso nervoso, e vai descobrir o seu lado mais obscuro ao longo dessa jornada.

A leveza de Sapatinhos Vermelhos é substituída por um tom sombrio em Cisne Negro. Em nenhum momento vemos aquele glamour das grandes escolas de balé ao redor do mundo. O que temos é quase um filme de terror (embora não possamos dar esse rótulo ao título), conduzido pela trilha sonora e pelo drama de O Lago dos Cisnes.

Para esclarecer, O Lago dos Cisnes é um conto de fadas clássico do balé russo, e “dança” a história de uma princesa aprisionada por uma maldição, transformada em cisne. O encanto só será quebrado se ela encontrar o amor verdadeiro. Para atentá-la, a sua irmã gêmea, a maligna da história, inferniza a sua vida, por inveja e ambição. É a batalha entre o cisne branco, a frágil e bondosa, e o cisne negro, a força do mal.

Nina vai descobrindo a sua verdadeira face no decorrer da projeção. Por se tratar de um filme onírico, confundimos o real com o imaginário, como um típico espetáculo de balé. O grande mérito do diretor Darren Aronofsky é criar essa atmosfera sombria, se utilizando de um conto de fadas transportado ao mundo real.

Esse tom sombrio, capturado em partes com câmera na mão em partes com enquadramentos primorosos, especialmente nas cenas de dança, tem o suporte da imagem granulada, da pouca cor utilizada na fotografia, que transfere ao filme um ambiente até pouco confortável. Esse “pouco confortável”, diga-se de passagem, é um ponto positivo, já que o objetivo é nos levar a um ataque de nervos junto com a interpretação de Natalie Portman.

A câmera na mão, em formato quase documental, como Aronofsky fez em O Lutador (2009), amplia a tensão da película. Cisne Negro não é um conto de fadas moderno, não chega a ser um filme de terror ou um drama. Podemos dizer que é, sem sombra de dúvida, um dos grandes lançamentos dos últimos anos, que utilizou um orçamento relativamente modesto para os padrões hollywoodianos (US$ 13 milhões).

A química dos atores na falta de química das personagens é também um ponto de destaque da produção. Desde o truculento diretor do espetáculo, vivido por Vicent Cassel, até a rival direta de Nina, interpretada pela atriz Mila Kunis, com quem Portman protagonizou a famosa sequência de lesbianismo do filme, Cisne Negro é uma obra de arte, primorosa em sua direção, roteiro e elenco. 

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