domingo, 2 de janeiro de 2011

Crítica: A Rede Social

Além do Facebook

Carlos Baumgarten

A popularização das redes sociais reflete muito mais do que uma nova moda entre o público jovem. Reflete a vontade de fazer parte de algo exclusivo, mesmo que não seja tão exclusivo assim. É a vontade de ser, mesmo que por alguns instantes, o centro das atenções. Muito mais do que a criação do Facebook, o filme A Rede Social explora esse mundo de sedução que vivenciam os jovens universitários de Harvard.

Eles já fazem parte de algo, relativamente, exclusivo: estar na prestigiada Universidade de Harvard. Dentro do ambiente acadêmico, entretanto, esses jovens buscam ainda mais exclusividade, que é a participação em clubes sociais, que vão dos calouros aos veteranos em último ano de curso. O brasileiro Eduardo Saverin deixou se seduzir por esse mundo: festas badaladas, mulheres e muita popularidade.

Mark Zuckerberg, talvez por osmose, quisesse fazer parte da festa. Mas seus trejeitos faziam com que as pessoas se afastassem dele. Sua genialidade para a informática, porém, chamou a atenção de um grupo de amigos que tinha um projeto de desenvolver uma rede social para os alunos de Harvard. Convidaram Zuckerberg, mas ele passou a perna em todos, e pegou o projeto todo para si, aperfeiçoando e incrementando-o enquanto negócio.

Assim nasceu o Facebook, uma das empresas mais lucrativas dos últimos anos: de um alojamento estudantil para o mundo; de uma brincadeira para um empreendimento sério; de um grupo de amigos para as brigas nos tribunais. Esses três pontos são abordados pelo roteiro de Aaron Sorkin, habilmente adaptado do livro Bilionários por Acaso, de Ben Mezrich.

O filme dirigido por David Fincher faz um paralelo entre as brigas nos tribunais entre os irmãos gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss, o indiano Divya Narendra, que tiveram a suposta ideia inicial do que viria a ser o Facebook, contra Zuckerberg. Além deles, o brasileiro Eduardo Saverin também brigava pela parte da empresa que seria sua, já que ele teria entrado como diretor financeiro do negócio e investido recursos próprios para o incremento do negócio.  

Toda a briga nos tribunais remete às ideias iniciais para a elaboração da rede social em questão, provocando um dinamismo na narrativa. Embora o livro de Mezrich foque mais na preocupação do status social das personagens envolvidos, o roteiro de Sorkin não deixa a desejar, quando resume todo o processo que levou o início da criação do Facebook: Zuckerberg teria levado um fora de uma garota e, bêbado em seu alojamento, criou um site para que as pessoas pudessem votar nas mulheres mais bonitas de Harvard.

Tudo foi registrado em seu blog, ou seja, todo o processo de invasão do sistema de Harvard estava documentado.  Tanto no livro, quanto no filme, dar-se a entender que Zuckerberg não era exatamente um mau caráter, tampouco um nerd pobre coitado. Sua genialidade na computação contrastava com sua aparente ingenuidade. Percebemos que, para ele, aquilo que estava fazendo não era nada de mais (pegar uma ideia e aperfeiçoar ou retirar alguém da jogada por simplesmente achar que ele não é mais necessário).

Esses aspectos, transmitidos pela narrativa de Mezrich, foram bem captados na direção de David Fincher. Ele também apostou em boas doses de humor, ao estilo nerd, que poderiam cair nos clichês da “exclusão social” ou da falta de sucesso com as garotas, mas foram bem colocados, em se tratando de uma história real.

A Rede Social estreou em dezembro e está rendendo boas críticas, além de agradar o público em geral. Isso porque houve uma aliança entre uma produção de extrema qualidade, cuidada nos mínimos detalhes, e a abordagem de um tema que está na pauta cotidiana, principalmente entre os jovens (que são as redes sociais), e de uma história real recente e polêmica.

Além das qualidades técnicas, como edição e fotografia (vide as tomadas abertas das casas noturnas e dos campos holandeses na sequência da disputa do campeonato de remo), a trilha sonora tem a predominância de música eletrônica juntada ao peso de guitarras distorcidas, característica recorrente nos filmes de Fincher.

Fora isso, a atuação hipnótica de Jesse Eisenberg como Zuckerberg é um ponto alto da película. E a produção apostou também num astro da música pop, talvez para sensibilizar um público jovem maior, ou não. Justin Timberlake interpreta Sean Parker, que aos 19 criou o Napster e recebeu um belo de um processo da indústria fonográfica.

Enfim, A Rede Social é um filme com todos os atrativos para público e crítica, o que só pode trazer méritos aos seus realizadores. Por curiosidade, para se atualizar, a página do longa no Facebook está disponível para isso (não poderia deixar de ser).    

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