segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Film Comission: até que ponto interferir na vida da população?


Carlos Baumgarten


Que o cinema é um excelente meio de divulgação, isso ninguém pode negar. Não é a toa que, recentemente, produções internacionais têm sido atraídas para rodar em terras tupiniquins, principalmente no Rio de Janeiro. Na última semana, o território fluminense recebeu equipes das franquias Crepúsculo, sucesso entre o público adolescente, e Velozes e Furiosos, um hit junto aos amantes de velocidade e carros tunados.

Para isso, entra em ação o trabalho do Film Comission, órgão que busca, justamente, atrair produções para as suas respectivas localidades através de negociações com as equipes. Se considerar o alcance do cinema hollywoodiano (principais alvos dos Film Comission ao redor do mundo), a divulgação através de fotografias primorosas acaba se concretizando com valores mínimos e, no final das contas, geram empregos e negócios pontuais no período de filmagens.

Mas, vale lembrar: a ação não sai totalmente gratuita. O diretor Woody Allen, por exemplo, recebeu uma proposta de patrocínio de US$ 7 milhões por parte de uma empresa privada carioca para rodar seu novo filme no Rio de Janeiro. Ações como essa rendem também bons incentivos para atrair produções mais modestas, porém de grande visibilidade, como é o caso dos trabalhos de Woddy Allen. Porém, junto a filmes como Crepúsculo e Velozes e Furiosos, trata-se de um valor irrisório.

O pagamento maior, entretanto, vem à população moradora das localidades. A rotina é modificada bruscamente durante os dias de filmagem. O que para uns pode ser um bom entretenimento, apesar de o acesso ser permitido apenas para membros das equipes e figurantes, para outros pode ser um terrível de um transtorno.

Exemplo recente foi a confusão ocasionada pelas filmagens do filme Amanhecer, da franquia Crepúsculo, realizadas no centro do Rio de Janeiro, em bairros como Lapa e Fátima, no último domingo. Moradores, avisados de última hora, acabaram sendo impedidos de adentrar em suas próprias ruas, por não estarem portando comprovantes de endereço.

Além da reclamação dos moradores, alguns comerciantes locais protestaram contra as imposições das equipes de filmagem. Um deles, inclusive, denunciou que a produção disse para eles não fazerem alarde, pois ganhariam R$ 100 pelo “apoio”. Falando em “cachê”, figurantes que atuaram como pedestres receberam R$ 70, cada, enquanto proprietários de veículos que circularam durante as filmagens embolsaram R$ 100, mas tiveram seus carros vistoriados. Como se não bastasse, moradores revoltados atearam fogo em banheiros químicos.

É claro que o sigilo das gravações deve ser respeitado, a fim de evitar vazamento de imagens antes da finalização do filme. Mas, as negociações entre a Film Comission de cada localidade junto à equipe de produção dos filmes devem ser articuladas de forma mais incisiva, buscando não se rebaixar à arrogância norte-americana, como bem ficou exposto no comportamento de Sylvester Stalonne e o seu Os Mercenários (2010).

Nesse aspecto, é preciso definir melhor o papel do Film Comission, não só como um órgão de atração de produções internacionais às localidades, mas também de defensor dos direitos de suas comunidades. Aproveitar ao máximo a oportunidade de receber produções que dêem visibilidade a determinado local não é apenas divulgar a imagem no exterior. É também dar oportunidade a trabalhadores locais, gerando emprego e renda, é incentivar a arte e a produção audiovisual, e, acima de tudo, entender que se trata de uma concessão da população, esta que, antes de qualquer interesse comercial, deve ser valorizada e respeitada.

Sabemos que essa realidade está um pouco longe. É só dar uma olhada do estereótipo criado pelo olhar estrangeiro ao longo dos anos. Mas, é a articulação de nossos gestores e os seus talentos para negociações que devem entrar em ação, de forma que não se predomine o interesse apenas de uma das partes, afinal, o resultado positivo pode vir para ambos os lados. 

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