sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Entrevista

Qual o seu tipo de filme: drama, romance ou NACIONAL?




Carlos Baumgarten
Fotos: Tatiana Takahashi

Com muito bom humor, a jovem roteirista e produtora, Bia Crespo, de 21 anos, lançou à luz dos holofotes uma discussão que, superficialmente, para muitos de nós, pode até passar despercebida. Porém, se formos ao fundo da questão, veremos que passa além de um simples “rótulo de prateleira” e já parte para um debate que envolve a valorização do nosso cinema.

Cena de Final Feliz.
Bia foi a responsável pelo roteiro do curta-metragem Final Feliz, projeto premiado no concurso Brasil em Cartaz, promovido pela Rede Cinemark. O curta foi dirigido por Dario Pato e se passa na fila de um cinema, quando um cliente xaveca a atendente da bilheteria. Na conversa, a atendente pergunta ao rapaz que tipo de filme ele gosta. Um dos gêneros citados por ele é “nacional”. Eis o grande cerne da questão.

Quando vamos às locadoras, por exemplo, acredito que em todo o País, vamos vasculhando: “lançamentos”, “drama”, “suspense”, “romance”, “comédia”, “NACIONAL”... Embora a produção tupiniquim desenvolva filmes dos mais diferentes gêneros, não importa a “rotulação”, eles sempre vão ser identificados como “NACIONAL”.

E é de forma bem-humorada que a roteirista e produtora Bia Crespo, juntamente com o diretor Dario Pato e toda a sua equipe, abordam essa questão em pouco menos de dois minutos. Bia, que é estudante do curso superior de Audiovisual da Escola de Comunicação e Artes da USP, concedeu ao Nicotina, Cafeína e Cinema esta entrevista, na qual abordamos a questão da valorização do cinema nacional.

Ele diz que gosta de filme "nacional".
Desde os 13 anos, Bia já sabia que queria trabalhar na área de audiovisual. “Foi um despertar muito simples: todos os meus amigos já falavam sobre alguma carreira que queriam seguir e eu não fazia ideia do que pretendia fazer no futuro. Minha mãe disse que eu deveria fazer algo que realmente gostasse. Eu disse que gostava muito de ir ao cinema e ela respondeu que talvez ‘fosse isso’”, lembra.

E não é a primeira vez que um trabalho desta jovem roteirista e produtora é contemplado no concurso da Cinemark. No ano passado, ela produziu o filme, “Menu”, dirigido pela Camila Luppi, vencedor do concurso promovido pela rede de cinemas. Quem quiser conferir esses e outros trabalhos de Bia Crespo, podem acessar a sua página do Vimeo: http://vimeo.com/biacrespo.

Ela diz que "nacional" não é gênero. 
Se ficou curioso para conferir Final Feliz, não perca tempo: clique aqui e veja o curta e confira aqui o making of. Para entrar em contato com a nossa entrevistada, escolha o Twitter (@wannabia) ou o Facebook (http://www.facebook.com/profile.php?id=100000019231334&v=info). E abaixo, sem mais delongas, confira a entrevista gentilmente concedida por Bia Crespo ao nosso blog:



Nicotina, Cafeína e Cinema - Apesar dos diversos gêneros do cinema nacional, nós, brasileiros, costumamos rotular a nossa produção como NACIONAL, ao invés de rotulá-los de acordo com os gêneros da prateleira. De que forma você aborda essa questão no seu projeto?

Bia Crespo - Eu tentei expor a questão de forma bem leve e cômica, sem parecer que realmente estava levantando uma discussão. É um diálogo simples entre uma vendedora de ingressos do cinema e um rapaz que tenta paquerá-la, mas acaba se dando mal, porque diz que gosta do gênero “nacional”, que ela alega não ser um gênero. É um filme de um minuto com uma piadinha, mas essa coisa de nacional não ser um gênero acaba ficando na cabeça das pessoas. Pelo menos, é isso que eu espero.

NCC - Na sua opinião, o que leva a população brasileira a generalizar a sua própria produção? Seria o imperialismo hollywoodiano ou uma questão cultural de não aceitar o que é da terra (como aqueles comentários: "nem parece que é filme brasileiro"!)?

BC - Eu acho que essa generalização vem de muito tempo atrás. Nos anos 70, diziam que todo filme brasileiro era filme de sacanagem. Desde o começo da década, estamos vivendo a época do “filme de favela”. Agora tá começando o tal do “sci-fé”, que traz uma onda de filmes sobre o espiritismo. O problema não é que todos os nossos filmes tratam do mesmo tema, e sim que nossos filmes que fazem sucesso tratam do mesmo tema. O Brasil tem uma produção cinematográfica razoável, mas só apresenta quatro ou cinco blockbusters por ano. Se um filme cai no gosto do público, logo surgem vários outros sobre a mesma coisa. Como a gente não tem uma indústria cinematográfica no Brasil, o jeito é ficar repetindo fórmulas que já deram certo. Os filmes que fogem desse “tema dominante” não entram no circuito comercial, mas eles sempre existiram.

NCC - Faltaria um pouco de firmeza dos nossos produtores com relação a essa questão?

BC - Não sei se a culpa é só dos produtores. Acho que é de todo mundo: produtores, roteiristas, diretores, distribuidores e exibidores. No Brasil, costumam existir só dois tipos de cineastas: aqueles que se consideram “artistas” e fazem filmes para um público específico e seleto e aqueles que só fazem filmes para mais de um milhão de espectadores e, portanto, nunca saem da mesma fórmula. Não existem filmes no meio-termo, aquele tipo de filme que você assiste, se sente bem, e depois esquece. Ou é um sucesso estrondoso, ou ninguém viu. É difícil ter uma variação de gêneros quando nossa produção é centralizada e quando os distribuidores não dão espaço para filmes de médio apelo.

NCC - Como estudante de audiovisual no Brasil, hoje, como você vê as possibilidades de mercado para vocês, novos realizadores?

BC - O mercado é bastante complicado para cineastas independentes. Enquanto fica cada vez mais fácil fazer um longa-metragem de baixo orçamento graças ao formato digital e ao barateamento das câmeras que filmam em full HD, a possibilidade de exibir o filme em algum cinema de prestígio ou de lançá-lo no mercado diminui brutalmente. Foi-se o tempo em que o jovem cineasta saía com a lata do filme embaixo do braço, batendo de porta em porta atrás de algum exibidor. Se o distribuidor e o exibidor não tiverem certeza de que seu filme será um sucesso de bilheteria, eles não vão lançá-lo. Eu acho que o melhor caminho pro cineasta independente hoje é a internet, seja para lançar o filme, seja para trilhar um caminho para as salas de cinema. O Esmir Filho, por exemplo, ficou famoso com a série “Tapa na Pantera” no YouTube e, uns dois ou três anos depois, conseguiu produzir e lançar um longa-metragem (“Os Famosos e Os Duendes da Morte”) no cinema, ainda que em circuito pequeno.

NCC - Fale um pouco do seu projeto Final Feliz. Detalhe um pouco a história. Você escreveu o roteiro, não foi?

BC - Sim, fui eu que escrevi. É uma história de um minuto que se passa na bilheteria de um cinema. Um rapaz quer ver um filme, mas não sabe qual. Então, a vendedora pergunta de que gêneros ele gosta. Ele acaba se dando mal quando fala “nacional”, porque a vendedora logo explica que nacional não é um gênero. O rapaz ainda tenta dar a volta por cima pedindo dois ingressos pra hora em que ela sair do trabalho. Mas a vendedora avisa que vai ao cinema com o namorado, que é o cara fortão da bombonière.

Bastidores de Final Feliz.

NCC - O que representa, pra você, a premiação do concurso Brasil em Cartaz? 

BC - Esse concurso é uma ótima oportunidade de aprendizado para estudantes de audiovisual. Não sei quando vamos ter a chance de trabalhar com um orçamento de R$ 30.000 de novo… É legal pra ter uma ideia de como funciona o mercado e ter que lidar com prazos, burocracias, fornecedores, etc. Pra mim, o melhor de tudo foi ver o filme no cinema e ouvir o público dando risada. Acho que essa é a melhor sensação que um roteirista pode ter! A maior parte do mérito por essas risadas vai pro Dario Pato, o diretor do filme. Eu costumo trabalhar com o Pato sempre que posso. Eu produzo e ele dirige. A gente tem ideias bem parecidas e ele é um excelente diretor. Fora isso, também gostei muito de ganhar carteirinha VIP pra assistir filmes de graça no Cinemark até o fim de 2011. Eu acho que todo estudante de cinema deveria ter direito a isso… A gente vai ao cinema mais de duas vezes por semana e, de certa forma, é estudo.

NCC - Pra você, qual seria o principal fator de desvalorização do cinema nacional? 

BC - O cinema nacional passou por trancos e barrancos ao longo da sua existência. Nos anos 60 e 70, quando nossa dramaturgia atingiu seu ápice, não tínhamos infraestrutura pra filmar e a maioria das falas tinha que ser dubladas. Nessa época, as pessoas iam ao cinema e não entendiam nada que os personagens estavam falando. Ainda assim, os nossos melhores filmes foram feitos entre essas duas décadas. Agora que trabalhamos com equipamentos de última geração e nossos cinemas são excelentes, não fazemos mais dramaturgia de alta qualidade. E isso não é específico do cinema. A TV também está desvalorizada. Pra mim, o maior problema é que não inventamos mais histórias boas e, se inventamos, não sabemos contá-las.

NCC - A falta de espaço para produções menores acaba dificultando a projeção de novos projetos no Brasil. Você acha que o cinema brasileiro, hoje, está "preso" à "grandes produções"?

BC - Essa discussão é bastante complicada. A utopia do entretenimento é unir qualidade à rentabilidade, mas isso raramente acontece e vem acontecendo cada vez menos. Se fazem filmes que parecem novelas da Globo, é porque o público gosta e paga pra ver. Não acho isso errado. Muito pelo contrário. Acho que nossa maior capacidade audiovisual está justamente nas novelas. Elas já foram bem melhores, mas ainda têm muita força. Se a novela dá 40, 50 pontos de audiência, por que não repetir a história no cinema? Por que não usar aquele ator ou aquela atriz para atrair o público? Brasileiro gosta de novela. Eu também gosto! É parte da nossa cultura. Apesar disso, deveria mesmo haver mais espaço para produções menores. É só com esse tipo de produção mais livre de fórmulas e menos comercial que o cinema consegue evoluir como arte, mas não acho que os filmes comerciais estejam tirando o espaço dos filmes mais artísticos. O público é diferente. Pra mim, difícil mesmo é acertar o ponto. Por exemplo: Tropa de Elite 2 está para se tornar a maior bilheteria da história do cinema nacional e, na minha opinião, não tem nada de mais. É um filme de ação. Se fosse americano, seria um daqueles filmes que a gente vai ver num sábado à tarde, depois do almoço. Agora, Saneamento Básico – O Filme, também com o Wagner Moura (e outros atores Globais), é uma comédia ótima, com roteiro inteligente, totalmente acessível ao grande público e foi vista por apenas 190 mil pessoas.

NCC - Como você avalia a sétima arte no Brasil, hoje? 

BC - Um dos maiores problemas, na minha opinião, é que os cineastas brasileiros não têm visão prática. A maioria dos estudantes de cinema não assiste TV, não acompanha novela, não sabe quais são as febres pré-adolescentes do momento. Esse distanciamento acaba gerando uma alienação que é muito séria. O cineasta quer ser “artista”, quer mostrar sua visão do mundo sem se “contaminar” pela massa. Isso é meio anos 60, sabe? Hoje em dia, o cinema é muito mais comunicação do que arte. E, como comunicacadores, nossa missão é saber exatamente o que o público está pedindo. Temos que expressar nossa visão de mundo de modo que o público seja capaz de absorver essa ideia, e não mantendo um distanciamento elitista. Não precisa fazer novela no cinema, mas também não precisa fazer filme de arte o tempo todo.

NCC - Você acha que o cinema deve ser regionalizado, ou tratado como linguagem universal, o que, como toda obra de arte, o é?

BC - Essa pergunta é bastante difícil. Eu não tenho muito conhecimento sobre cinema de outros Estados, mas imagino que sejam filmes bem voltados para o público interno mesmo, já que não chegam ao Sudeste. Sim, sou a favor da universalidade dos temas, mas acho que isso pode ser feito usando uma região de forte influência cultural como parte da história. “O Auto da Compadecida”, por exemplo, faz parte daquela onda do “nordestino fantástico” e foi sucesso no Brasil inteiro. Era uma produção bem moderna, com câmera rápida e temas que podem ser assimilados por pessoas de qualquer lugar do mundo (pobreza, crime, redenção, fé, dupla de personagens atrapalhados). É como algumas novelas mais antigas (“Roque Santeiro”, “O Bem Amado”, “A Indomada”), que se passam no Nordeste e falam de política e temas que estavam em voga na época. Sim, tanto o filme quanto as novelas são produções do Sudeste com cenário no Nordeste. Então, não sei dizer se esse aspecto universal vem das grandes capitais do País. Acho que o Rio e São Paulo, e principalmente São Paulo, conseguem falar de temas mais abrangentes porque não têm uma identidade cultural tão forte quanto o Nordeste ou o Sul, por exemplo.

NCC - E quais são os seus planos para o futuro?

BC - Ano que vem tenho que apresentar um projeto de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) e estou desenvolvendo com mais duas colegas um projeto de longa-metragem. Nunca fizeram um longa de TCC, mas acho que está mais do que na hora. Tenho alguns colegas que vão rodar um western em julho do ano que vem, e, no Rio e no Ceará, os universitários estão produzindo filmes bem legais (“Apenas o Fim”, longa do pessoal da PUC-RIO, por exemplo). Não gosto do formato de curta-metragem. Acho que é bem útil pro aprendizado, mas não tem nenhuma vida comercial. Não estou interessada em ganhar prêmios em festivais. Quero que meu filme seja visto! Fora que as pessoas não têm o hábito de ver curtas-metragens de 10 a 20 minutos. Ou elas assistem filmes de até 3 minutos no YouTube, ou elas sentam para assistir um longa. O ambiente da Universidade é um dos mais propícios para fazer um longa-metragem, já que temos equipamentos e infraestrutura de graça. Nossa ideia é fazer um filme que fale um pouco sobre nossa geração (a “Geração Y”, como dizem). Então, todos os protagonistas serão universitários de 20 a 25 anos. Eles estão tentando assassinar um político famoso. Por enquanto, estamos desenvolvendo o projeto, mas assim que tiver um argumento fechado eu volto aqui pra falar mais sobre o filme, pode ser?

NCCCom certeza!

BC - Foi um grande prazer dar essa entrevista! Quem quiser entrar em contato comigo, pode me adicionar no Twitter (@wannabia) ou no Facebook (http://www.facebook.com/profile.php?id=100000019231334&v=info).

Equipe de Final Feliz. Nossa entrevistada, Bia Crespo, está entre eles. Se você
ficou curioso pra saber quem é, visita a página dela no Vimeo.

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