quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Crítica: Senna

Retrato chapa branca



Carlos Baumgarten


Ayrton Senna não foi só um grande ídolo do automobilismo. Foi um grande ídolo do esporte mundial. Sua agressividade nas pistas contrastava com a tranquilidade junto à família. O documentário Senna, que estreou na última sexta-feira em circuito nacional, apresenta a trajetória de vitórias do piloto até a sua morte precoce, em 1994. Um relato positivo, emocional e digno de um campeão.

Mas, como todo relato emocional, a linha de distância entre a história e o realizador torna-se tênue. A impressão que temos é que o filme Senna foi feito exclusivamente para agradar os fãs do piloto e do automobilismo. Diga-se de passagem, ninguém pode negar que Ayrton Senna foi um grande campeão, de fato, e foi um dos poucos que lutou contra a politicagem na Fórmula 1.

Entretanto, a sua agressividade ou obsessão pela vitória, em determinados momentos, poderia ser interpretado como um ato falho. Uma fala do seu arquirrival, Alain Prost, esclarece esse ato falho. Em um dos  GPs de Mônaco, Senna pilotava ferozmente a sua McLaren, tendo inclusive sendo alertado pelos seus engenheiros de que a vantagem dele era imensa e o ritmo deveria ser reduzido. Ele não deu ouvidos e, resultado: acabou no guardrail.

Na ocasião, Prost citou que Senna queria humilhá-lo com tal atitude, o que, do ponto de vista do documentário, veio como uma declaração de mau perdedor. Apesar de se comentar que Senna cresceu com o fato, o retrato do campeão é focado em todos os seus pontos altos, sua personalidade determinada, persistente e a imagem que ele passava ao público de humildade.

Pode até não ser uma intenção explícita, mas Senna faz um retrato do nosso campeão como alguém incorruptível, um ser humano além do plano terreno. Guiado pelo talento, pela persistência e por muita fé, Senna foi tricampão mundial de Fórmula 1, tendo que enfrentar nomes como Alain Prost e políticos do automobilismo mundial, como o presidente da Federação Internacional de Automobilismo da época, Jean Marie Balestre.

Com esses elementos, o documentário de Asif Kapadia ganha ares de drama ficcional: você tem batalhas nas pistas, vilões fora delas, muito dinheiro em jogo e um herói. Por tudo que fez,  merecidamente, Senna é reconhecido até hoje como um dos maiores pilotos da história da Fórmula 1. Sua luta por melhores gestões e melhores condições para os pilotos, infelizmente, vieram apenas após a sua morte, no GP de San Marino, em 1994. Desde o fatídico 1 de maio de 1994, não houve mais fatalidades na categoria. Ele só não conseguiu derrotar o maior de todos os vilões: a politicagem.

Mas, seu legado para o esporte é evidente, apesar de até hoje não termos nenhum piloto brasileiro em evidência na Fórmula 1. O documentário Senna é uma excelente pedida para diversos públicos: para os curiosos, para os admiradores do piloto, para os fãs de automobilismo, para quem quer ver um pouco dos bastidores, enfim, pode e deve agradar a muita gente. Para os críticos, deve deixar a desejar no sentido de se focar no “endeusamento” do piloto.

Asif Kapadia fez um filme todo em cima de imagens de arquivo. Os depoimentos atuais, do jornalista Reginaldo Leme, da sua irmã, Viviane Senna, e de personalidades da Fórmula 1, como o próprio Prost e Frank Williams, seu último patrão, são executados em off, sobre as imagens. E são inúmeras cenas de bastidores, entrevistas inéditas e até vídeos caseiros. É um relato extremamente rico, bem conduzido de uma figura que trazia alegrias a muitos brasileiros nos domingos.

Talvez, desse ponto de vista, possamos entender porque Kapadia focou na emoção em vez de optar pela razão. Mais do que um documentário, mais do que a construção de uma vida, a construção de um ídolo, é um tributo a um campeão e a uma referência do esporte mundial.    

Foto: Divulgação

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