sábado, 27 de novembro de 2010

Conflitos no Rio e Tropa de Elite: a popularização do Bope

Carlos Baumgarten



Pode até ser uma visão pessoal, mas a verdade é que, desde o primeiro Tropa de Elite, o Batalhão de Operações Especiais (Bope) parece ter ganhado uma popularidade maior. Popularidade essa que pode até ser prejudicial, uma vez que muitos membros da nossa sociedade acreditam que o caminho para o fim da violência é a própria violência.

Quando Tropa de Elite foi lançado em 2007, o capitão Nascimento tornou-se uma referência para uma sociedade amedrontada e paranoica. A ideia de que “vagabundo comigo não tem vez” e que “tudo se resolve na base da tortura”, defendida em muitos níveis da nossa sociedade, foi revisada na sequência do filme de José Padilha.

O discurso ganhou um ar mais político e mais “humanista”, por assim dizer. Nascimento vira um tipo de super-herói do povo brasileiro e faz o que muita gente teria vontade de fazer, como, por exemplo, dar uns tabefes em um deputado corrupto. E, em meio a esses lamentáveis acontecimentos no Rio de Janeiro, que já estão completando uma semana, é inevitável fazer essa ligação com o filme de Padilha.

O Bope surge na televisão como uma personagem popular entre os brasileiros, respeitado como estrela de cinema e admirado como herói nacional. O discurso torna-se superficial, voltando ao primeiro filme, em 2007. Eu, particularmente, já ouvi gente falando que “considerar traficante pobre coitado é frescura. Tem que matar”. Pobre coitado ninguém quer ser, com certeza. Optar pelo crime é uma opção, sem dúvida. Mas seria uma opção consciente?

Sabemos que quem sustenta o tráfico, em grande parte, é a classe média alta, a polícia corrupta e os políticos que almejam o poder acima de tudo. Aliar os dois discursos dos Tropa 1 e 2 e entender o que representa a atual guerra civil que ocorre no Rio é rever uma série de valores da nossa sociedade.

Como publicado na Agência O Globo hoje, os conflitos no Rio deram um novo fôlego ao filme de Padilha. Mas precisamos entender o porquê: a popularização do Bope, a necessidade dos heróis fictícios ou entender essa lógica ilógica da violência pela violência? O cinema nos ajuda a refletir sobre o que se passa ao nosso redor, mesmo quando achamos que já debatemos tudo que podíamos debater.   

Um comentário:

  1. A questão é que, por motivos políticos, deixaram a situação chegar a esse ponto e agora a violência contra a violência é a única forma de se minimizar a situação. Se alguém tem fome, não adianta colocar essa pessoa na escola e dizer que daqui a cinco anos ela vai ter conhecimento suficiente para conseguir um emprego que permita ganhar o suficiente para viver dignamente; tem que dar comda para essa pessoa. Do mesmo modo, a educação, que é a grande solução para o problema da violência resolve o problema para a próxima geração, mas a geração atual não quer (e não pode) esperar. Então se a solução imediata (e provisória) é fuzilar bandido, é melhor fuzilar. Só que fuzilar bandido e não dar educaçao e saúde significa apenas aplicar um paliativo e não resolver e definitivo a questão.

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