domingo, 17 de outubro de 2010

Nossos caminhos



Carlos Baumgarten




Foi divulgada no último dia 14 de outubro a lista dos 45 projetos de longa-metragem contemplados pelo Fundo Setorial do Audiovisual. Ao todo, serão disponibilizados R$ 39,2 milhões. Até aí nenhuma novidade. A novidade, na verdade, é o fato de não termos muitas novidades nas escolhas do projeto.

Infelizmente, a impressão que se tem é a formação de panelinhas, como na política, que acabam tornando as produções cíclicas e, muitas vezes, sem bons resultados. A prova disso está na quantidade de filmes brasileiros lançados nos últimos anos carentes de criatividade e qualidade.

Uma vez me disseram que o critério para escolha desses projetos leva em conta a sua estrutura. Em outras palavras, você pode ter uma ideia medíocre, mas um projeto muito bem elaborado e detalhado e, do outro lado, você pode ter uma grande ideia, mas se você for marinheiro de primeira viagem, dificilmente será contemplado pelo fundo.

Some-se à isso as panelinhas: grandes figurões do cinema nacional, a exemplo do produtor Luiz Carlos Barreto, o Barretão, que, mais uma vez, foi contemplado. O mínimo que se ver na lista são nomes de novos realizadores, o que leva a pensar sobre como seria possível fazer cinema no Brasil.

Sabemos que é uma estrada sinuosa, cheia de altos e baixos, a ponto de que nem grandes produtoras conseguem (ou têm a competência) de levantar recursos próprios para suas produções. A impressão que se dá é que houve uma estagnação do nosso “fazer cinematográfico”, o que nos torna, nesse sentido, totalmente dependentes de verbas públicas.

E os critérios para seleção nunca serão claros para nós, afinal, o próprio público muita vezes questiona: “Como podem ter liberado dinheiro público para um filme como esse?”. Arte é arte. Arte é subjetiva. É o que muitos podem dizer. Sabemos que há critérios para o que é individual e o que é coletivo, mas não sabemos ainda o real destino e objetivo do cinema brasileiro: entreter, fazer refletir, criticar ou todos esses juntos?

Veja o caso de Neville d´Almeida, que fez bonito nas bilheterias em 1978 com o longa A Dama da Lotação. O cineasta não rodava um filme de ficção desde 1997, quando lançou Navalha da Carne. Treze anos depois, recebe a verba de R$ 1 milhão para rodar A Frente Fria que a Chuva Traz, adaptação de peça homônima do dramaturgo Mário Bortolotto.

Segundo relatos de quem estava presente, ao ouvir o seu projeto na lista de selecionados, Neville emocionou-se, sendo um retrato da dubiedade dos critérios de editais para tais escolhas. Se Neville destacou-se pelo seu feito, Luiz Carlos Barreto protagonizou o “barraco” do dia, abordando nervosamente o diretor Pedro Carlos Rovai, por conta de um episódio envolvendo a ata de extinção da Embrafilme. Barretão disse que Neville teria assinado um documento que colocou mais 30 produtores como devedores.   

Apesar da variedade de gêneros, não há um horizonte visível que nos permita perceber qual será o destino do cinema brasileiro. Pelas experiências, as expectativas podem não ser tão boas. Mas, é preciso esperar e torcer para que a forma de se fazer cinema no Brasil seja mais profissionalizada e não fique totalmente dependente de verbas do Governo. Precisamos, sim, ter apoio público, mas esse não deveria ser o único caminho possível, já que você acaba tornando o processo demasiadamente excludente, deixando de lado a possibilidade de conhecermos novos realizadores que podem dar uma nova estética à sétima arte tupiniquim.

Confira a lista dos 45 projetos selecionados, divulgada na Agência O Globo.  

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