sexta-feira, 15 de outubro de 2010

“A Montanha dos Sete Abutres”

Carlos Baumgarten


Não foi só uma vez que ouvi a comparação. Em meio à aula de sensacionalismo que pudemos assistir nas televisões de todo o mundo no emocionante resgate dos 33 mineiros chilenos, pelo menos duas vezes, pude conferir a comparação de dois comentaristas entre o fato e o filme A Montanha dos Sete Abutres (1951).

José Geraldo Couto, crítico de cinema e blogeiro da Folha On Line, foi o primeiro a citar o filme de Billy Wilder, no dia 13 de outubro, quando se iniciou o processo de resgate. Em seguida, o comentarista da Rede Globo, Alexandre Garcia, introduziu a comparação aos telespectadores do Bom Dia Brasil, no dia 14 de outubro, quando o circo estava “pegando fogo”.

Para quem não conhece, o filme A Montanha dos Sete Abutres narra a história de um jornalista, interpretado por Kirk Douglas, que, dotado da falta de escrúpulos, manipula o salvamento de um mineiro soterrado no sul dos Estados Unidos. E o que não faltam são filmes sobre o poder imposto pela mídia, tais como O Quarto Poder (1997) e Acima de Qualquer Suspeita (que possui duas versões: uma de 1956, e outra de 2008).

É bem verdade que as produções citadas referem-se a uma leitura de Hollywood, ou seja lá qual for a origem, sobre um outro circo, afinal sabemos que o drama dos mineiros é um prato cheio para roteiristas de cinema. Antes de chegar às telas, porém, já foi confirmado um filme para a TV sobre o ocorrido. E propostas é o que não faltam para retratar o drama.

É bem verdade também que esse poder imposto pelos meios de comunicação social, e leia-se aí todas as vertentes possíveis, do jornal ao cinema, vê em um drama como o dos mineiros soterrados no Chile uma forma de ganhar ($). Não é a toa que mais de mil veículos estavam presentes ao local do resgate. Não é a toa que Steve Jobs, chefão da Apple, vai “doar” Ipods para os 33 trabalhadores. Não é a toa que o presidente chileno estava tão próximo dos mineiros. Não é a toa que o time Universidad del Chile ofereceu ingressos vitalícios para os torcedores do clube.

É tudo uma questão de ganhos. A referência dos dois veículos ao filme A Montanha dos Sete Abutres acaba fazendo uma leitura, por si só, de seus próprios trabalhos. Informações, imagens, declarações repetidas exaustivamente, mas acompanhada por um público fiel, acostumado às imposições da mídia mundial.

Um dos mineiros chegou a declarar “Não sou artista, sou mineiro”, graças ao assédio exagerado promovido pelo circo das comunicações mundiais. Eles foram transformados em heróis pela resistência de mais de dois meses, pela vontade de viver e pela determinação em acreditar na finalização do drama. Mas, acima de tudo, eles foram transformados em heróis, infelizmente, pela vontade do sistema em lucrar em cima de suas histórias de vida: bilheterias no cinema e audiência nas televisões.

Foi como Oliver Stone bem ilustrou em seu filme Assassinos por Natureza (1994): os heróis e modelos sociais surgem quando e como a mídia quer. Se não fosse a tragédia, esses 33 mineiros estariam ainda trabalhando em condições mínimas de segurança para arrancar uns mínimos trocados e encher o bolso dos grandes abutres do capitalismo. 

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