segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Linguagem cinematográfica na TV



Carlos Baumgarten



Estreou ontem no Brasil a série Boardwalk Empire: O Império do Contrabando, que está sendo exibida pelo canal pago HBO. Produzida por Martin Scorsese, a série é inspirada na trajetória real de Enoch “Nucky” Johnson (que, na produção, teve o sobrenome mudado para Thompson), um líder político tão carismático quanto corrupto, que comandou o crime em Atlantic City por cerca de 30 anos.

O episódio piloto da série, dirigido pelo próprio Scorsese, inicia em 1920, às vésperas da entrada da Lei Seca nos Estados Unidos, que permitiu um ganho muito maior por parte dos criminosos, que contrabandeavam o produto. Apesar de ser uma produção televisiva, muito se utilizou da linguagem cinematográfica.

Na verdade, a impressão que se tem é que estamos vendo um curta-metragem de Martin Scorsese, com seu estilo marcante e ritmo alucinante. A exploração do mundo mafioso, que sempre atraiu Scorsese, é, mais uma vez, regrado a cenas de violência e humor ácido.

Em termos de qualidade, não deixa a desejar. Trata-se de uma superprodução, com uma impecável pesquisa de época, o que permitiu a reconstrução do calçadão de Atlantic City dos anos 20 em pleno bairro do Brooklyn, em Nova Iorque. Porém, como bem colocou o crítico André Barcinski, da Folha On Line, a identidade da TV, mais uma vez, se perde na tentativa de se introduzir a linguagem cinematográfica na telinha.  

Essa introdução já data de mais de uma década, desde seriados como 24 Horas, Lost e, no Brasil, com A Justiceira, ainda nos anos 90. E quando você tem trabalhos bem produzidos, como é o caso de Boardwalk Empire, pode até se perguntar: por que não produzir para o cinema?

O próprio Scorsese afirmou que a ideia seria trabalhar dentro de um formato mais longo, que fosse dividido em capítulos, formato esse que só caberia dentro da TV. Existe uma diferença de, pelo menos, quatro décadas entre o surgimento do cinema e a invenção da televisão. Obviamente, o segundo surgiu como um complemento do primeiro e uma extensão para o rádio, criando a sua própria linguagem.

Agora, os produtores de TV parecem que, cada vez mais, querem absorver a linguagem do cinema e, alguns cineastas estão procurando essa transição de formato, mas impõem o seu estilo dentro de uma outra realidade. A Globo Filmes é um exemplo do caminho contrário, ao introduzir a linguagem de TV no cinema, afinal, quando vemos suas produções, parece que estamos vendo minisséries (Se Eu Fosse Você, de 2006, Olga, de 2004), sem contar as próprias minisséries que viraram filmes, como A Invenção do Brasil (2001) e O Auto da Compadecida (2000).

Esse é o primeiro trabalho de Scorsese na TV. De fato, é uma grande produção, sendo que o piloto, como já foi dito, possui a marca do diretor ítalo-americano. Mas, para quem gosta do seu estilo, vale ressaltar que Scorsese só dirigiu o primeiro episódio. O segundo, que já foi exibido ontem, e os demais estão nas mãos de outros diretores, sendo que Scorsese apenas supervisionou o trabalho. Fica apenas a ressalva: é o cinema invadindo a televisão.  

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